Marx e a filosofia

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  • Publicado : 23 de maio de 2012
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RESUMO

O objetivo principal do artigo é resgatar uma velha questão polêmica entre os intérpretes de Marx: a relação do pensamento marxiano com a filosofia, e também com a questão metodológica, mas sem pretensão de esgotar tal instigante assunto. Em verdade, trata-se de indicar alguns elementos para evidenciar que não se quer dizer que esse é um tema "esgotado". Ao contrário. Assim, apósesboçar a relação crítica de Marx com a tradição clássica alemã, responsável, talvez, pelo surgimento de tantos embaraços, o artigo procura esclarecer o modo como Marx entende e concebe as funções operativas da razão, bem como o estatuto que a objetividade possui em sua trajetória teórica. Ademais, problematiza-se o caráter mesmo que o saber assume em seu corpus teórico: seria um saber especulativo ou umsaber da transformação? Por fim, intenta-se esclarecer o caráter do materialismo instaurado por Marx, como também referências feitas em O capital à dialética hegeliana.

1_ Objetivo geral

O tema em pauta, ou seja, Marx e a Filosofia, mereceu e tem merecido a atenção de um sem-número de intérpretes, podendo ser considerado, assim, uma das mais polêmicas discussões travadas em torno da obramarxiana. Mas vale a pena lembrar Gramsci (1972, p. 116) de modo sucinto, com o objetivo de tornar claro o clima que orienta nossa exposição:

É preciso ser justo com os adversários, no sentido de que é necessário esforçar-se por compreender o que estes quiseram dizer realmente, e não se deter maliciosamente nos significados superficiais e imediatos de suas expressões.

Dito isso, é imperiosoressaltar que o nosso objetivo aqui não é o de esgotar tal polêmico tema, mas, antes de tudo, chamar a atenção para alguns pontos, que, talvez, até hoje, não tenham sido levados devidamente em consideração nas acirradas disputas teóricas sobre o caráter da relação entre Marx e a Filosofia. O objetivo é, portanto, indicar algumas chaves analíticas, sem a preocupação de tomar para exame crítico esseou aquele intérprete como objeto de contenda teórica. Considera-se que antes dessa tarefa, sem dúvida imprescindível, é necessário indicar o perfil geral da questão.



2_ A relação crítica de Marx com a tradição clássica alemã

Talvez a fonte de tantos dilemas tenha sido a controvertida relação crítica de Marx com a tradição clássica alemã, que resultou para alguns em uma extensão nãopercebida de parâmetros idealistas em sua propalada "fase juvenil". Contudo, detendo-se com rigor nas obras de seu período inicial, constataremos que a fase rigorosamente idealista não passa de meados de 1843. Ou seja, o acerto de contas, a rejeição da "substância mística" hegeliana, do seu "misticismo lógico, panteísta" se realiza nas afamadas Glosas de Kreuznach. Já nesse período é possívelidentificar em seus contornos mais decisivos a opção gnosiológica de Marx, que rejeita qualquer tipo de construtivismo especulativo, seja este resultante de alguma tentativa de correção sofisticada – mas, sempre formalizante – dos limites das ciências do entendimento, seja ele – o que vem a ser tão unilateral e equivocado – qualquer tipo de edificação, por mais elevada ou tortuosa que seja, de algum cogitotranscendental. Esses dois caminhos equivocados não elidem, por mais diferentes que sejam entre si, a distância essencial que os separa da formulação marxiana, visto que ambos não ultrapassam a dação de sentido pela razão, com a única distinção cabível de um a priori para um a posteriori.

Resumidamente, o construto muda simplesmente de lugar: antecede ou sucede o golpe de vista que se dirigeao mundo; dá sentido à entificação antes ou depois de tocá-la. Mas é sempre a razão a doadora de significação a um mundo, imanentemente carente de sentido. Condição mesma de existência de sentido, no primeiro caso; aproximação genérica, emulsão significativa em meio a um campo homogeneizado, no segundo, ambos tomam a operação mental como constituinte de sentido, divergindo entre si na forma e na...
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