Martinho lutero, um destino

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Abordar aspectos psicológicos em História não é nenhuma novidade. Nós mesmos, no Brasil, temos um conhecido historiador, que é exemplo típico de um estudioso de personagens históricos. Vale a pena citar Pedro Calmon, para ilustrar a maneira pela qual caracterizava psicologicamente um personagem:

"Continuava imperturbável, na sua tolerância mansa, de quem se não se espantava da ingratidãoou do esquecimento, indispensável à imperfeição humana."1

O texto de Pedro Calmon e enfático na abordagem psicológica. Neste empreendimento, o indivíduo é visto em sí mesmo, não revelando o intrincado jogo social que banha o quotidiano do personagem. As explicações para um determinado comportamento não são formuladas a partir da sociedade, mas do homem em sí, através daquilo que ele possui depróprio. O ser, assim, é visto por intermédio do indivíduo e não através de uma complicada relação entre o particular e o social.

O tipo de descrição histórica exemplificado em Pedro Calmon é característico de historiadores do século XIX, preocupados com a questão da memória nacional e com a necessidade de resgatar e exaltar os homens que, pretensamente, possibilitaram a construção da identidadeda nação. Ora, se não são os historiadores do século XIX o tema do artigo, no entanto é importante citá-los a fim de fazer um contraponto entre a abordagem do personagem histórico elaborada por Febvre e esta historiografia.

Nem mesmo pode-se afirmar que a descrição psicológica seja algo característico do século XIX. Segundo Georges Duby, a História, desde seus primórdios, sempre se preocupou coma descrição dos perfis psicológicos. Quando os acontecimentos deixaram de ser pensados pela ótica do mágico, muitos observadores passaram a explicá-los através do psicológico, tentando encontrar os motivos pelos quais um homem se sobressaía dos demais. A História, então se apresentava como um estudo dos comportamentos e das atitudes mentais, mesmo sendo feita de modo ingênuo2. Ao longo do tempo,percebeu-se que analisar um personagem histórico contemporâneo é um empreendimento simples, quando comparado ao estudo de uma época mais remota e logo, distante do mundo vivido pelo historiador. Ou melhor, o estudo de fatos recuados no tempo se torna perigoso à medida em que se afasta do presente do historiador (sobretudo quando se abordam as mentalidades). Neste caso, pode-se facilmente incorrerem erros de anacronia, ou melhor, atribuir a esses homens características que são peculiares à nossa época e, consequentemente, estranhas ao tempo estudado. Contudo, dificilmente seria possível captar o passado "in totum". Tal pretensão pertencia aos historiadores positivistas.

Duby, ao relatar os antecendentes da história das mentalidades, comenta que a partir do século XVIII se iniciou umdebate sobre atitudes psicológicas. Percebeu-se que, assim como os costumes e as maneiras de viver, os comportamentos psicológicos não eram os mesmos em todas as épocas. Neste período, concluiu-se que o homem havia deixado de viver um vida selvagem para construir uma civilização. Os intelectuais, assim, notaram a transformação sofrida pela sociedade humana ao longo dos séculos. Voltaire mesmo, emEssai sur les moeurs (Ensaio sobre os costumes), de 1756, tentou escrever uma história dos costumes humanos, mas não teve continuidade. Depois de meados do século XIX, houve um lento desenvolvimento de uma história das sensibilidades com o aperfeiçoamento da História da Arte e Literatura. Entretanto, ainda segundo Duby, essas incursões na sensibilidade humana mostraram-se subjetivas e problemáticas.Outras tentativas, atuando sobre os fenômenos religiosos, levaram a um estudo da evolução da crença, mas o domínio da história "interior" foi dificultado pelo desenvolvimento insuficiente da Psicologia.

Quase no século XX, graças aos movimentos populares reivindicando participação política e a divulgação de concepções marxistas, tornou-se possível relativizar a tendência que tinham os...
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