Marilia dirceu

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Marília de Dirceu
(Texto estabelecido e anotado por Sérgio Pachá) PARTE I Lira I Eu, Marília, não sou algum vaqueiro, Que viva de guardar alheio gado; De tosco trato, de expressões grosseiro, Dos frios gelos e dos sóis queimado. Tenho próprio casal e nele assisto; Dá-me vinho, legume, fruta, azeite; Das brancas ovelhinhas tiro o leite E mais as finas lãs, de que me visto. Graças, Marília bela,Graças à minha estrela! Eu vi o meu semblante numa fonte: Dos anos inda não está cortado; Os pastores que habitam este monte Respeitam o poder de meu cajado. Com tal destreza toco a sanfoninha1, Que inveja até me tem o próprio Alceste2: Ao som dela concerto a voz celeste; Nem canto letra que não seja minha, Graças, Marília bela, Graças à minha estrela! Mas tendo tantos dotes da ventura, Só apreçolhes dou, gentil pastora, Depois que teu afeto me segura3 Que queres do que tenho ser senhora. É bom, minha Marília, é bom ser dono De um rebanho, que cubra monte e prado; Porém, gentil pastora, o teu agrado Vale mais que um rebanho e mais que um trono. Graças, Marília bela, Graças à minha estrela! Os teus olhos espalham luz divina, A quem a luz do Sol em vão se atreve; Papoula4 ou rosa delicada efina Te cobre as faces, que são cor da neve. Os teus cabelos são uns fios d’ouro; Teu lindo corpo bálsamos vapora. Ah! Não, não fez o céu, gentil pastora, Para glória de Amor igual tesouro! Graças, Marília bela,

Graças à minha estrela! Leve-me a sementeira muito embora O rio, sobre os campos levantado; Acabe, acabe a peste matadora, Sem deixar uma rês, o nédio gado. Já destes bens, Marília,não preciso Nem me cega a paixão, que o mundo arrasta; Para viver feliz, Marília, basta Que os olhos movas, e me dês um riso. Graças, Marília bela, Graças à minha estrela! Irás a divertir-te na floresta, Sustentada, Marília, no meu braço; Aqui descansarei a quente sesta, Dormindo um leve sono em teu regaço; Enquanto a luta jogam os pastores, E emparelhados correm nas campinas, Toucarei teus cabelosde boninas, Nos troncos gravarei os teus louvores5. Graças, Marília bela, Graças à minha estrela! Depois que nos ferir a mão da morte, Ou seja neste monte, ou noutra serra, Nossos corpos terão, terão a sorte De consumir os dois6 a mesma terra. Na campa, rodeada de ciprestes, Lerão estas palavras os pastores: “Quem quiser ser feliz nos seus amores, Siga os exemplos que nos deram estes.” Graças,Marília bela, Graças à minha estrela! Lira II Pintam, Marília, os poetas A um menino vendado, Com uma aljava de setas, Arco empunhado na mão; Ligeiras asas nos ombros, O tenro corpo despido, E de Amor ou de Cupido São os nomes que lhe dão. Porém eu, Marília, nego, Que assim seja Amor, pois ele Nem é moço nem é cego, Nem setas nem asas tem.

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Ora pois, eu vou formar-lhe Um retrato mais perfeito,Que ele já feriu meu peito: Por isso o conheço bem. Os seus compridos cabelos, Que sobre as costas ondeiam, São que os de Apolo mais belos, Mas de loura cor não são. Têm a cor da negra noite;7 E com o branco do rosto Fazem, Marília, um composto Da mais formosa união. Tem redonda e lisa testa, Arqueadas sobrancelhas, A voz meiga, a vista honesta, E seus olhos são uns sóis. Aqui vence Amor ao céu:Que no dia luminoso O céu tem um sol formoso, E o travesso Amor tem dois. Na sua face mimosa, Marília, estão misturadas Purpúreas folhas de rosa, Brancas folhas de jasmim8. Dos rubins9 mais preciosos Os seus beiços10 são formados; Os seus dentes delicados São pedaços de marfim. Mal vi seu rosto perfeito, Dei logo um suspiro, e ele Conheceu haver-me feito Estrago no coração. Punha em mim os olhos,quando Entendia eu não olhava11; Vendo que o via, baixava A modesta vista ao chão. Chamei-lhe um dia formoso; Ele, ouvindo os seus louvores, Com um gesto desdenhoso Se sorriu, e não falou. Pintei-lhe outra vez o estado Em que estava esta alma posta; Não me deu também resposta, Constrangeu-se e suspirou.

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Conheço os sinais; e logo, Animado de esperança, Busco dar um desafogo Ao cansado...
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