Marcha das utopias

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  • Publicado : 25 de setembro de 2011
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A MARCHA DAS UTOPIAS

Pode-se chamar de Ciclo das Utopias esse que se inicia nos primeiros anos do século XVI, com a divulgação das cartas de Vespúcio, e se encerra com o Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels em 1848, documento esse que liquida o chamado Socialismo Utópico, aberto com a obra de Morus e que, superado, chega, no entanto até o século XIX, quando o francês Cabetpublica a sua Viagem à Icária.
Com o Manifesto de Marx e Engels anuncia-se o novo ciclo – o do chamado Socialismo Cientifico. Com ele coincidem os grandes abalos da Europa Liberal do século passado, onde esplendem, entre outras, as figuras de Mazzini e Garibaldi. Marca a brecha decisiva no poder temporal dos papas o fim da Santa Aliança e de seus resíduos reacionários. Foi tão vivo omovimento liberal, e tão sedutora a imagem de uma Europa progressista que o próprio Pio IX se viu envolvido algumas vezes na onda patriótica que unificaria a Itália.
Os pontos altos do Ciclo das Utopias foram: no século XVI a miscigenação trazida pelas descobertas; no século XVII a nossa luta contra a Holanda e o Tratado de Westfália, no século XVIII a Revolução Francesa.
A importância daguerra holandesa foi ter prefigurado, face a face, duas concepções da vida – a da Reforma e a da Contra Reforma.
Os judeus julgando-se povo eleito, detentor exclusivo dos favores de Deus, criaram o racismo. Os árabes, povo exogâmico, criaram a miscigenação. E a luta desenvolvida por milênios, tanto no campo étnico como no campo cultural, foi essa – entre o racismo esterilizador, masdominante dos judeus e a mistura fecunda e absorvente dos árabes. Aqueles deram longinquamente a Reforma, estes a Contra Reforma. Aqueles produziram Lutero e Calvino.
Acredito que o maior erro da catolicidade foi o ato de Clemente XIV, extinguindo a ordem conquistadora de Loiola.
O fracasso da realização de uma igreja nacional, entre nós, me faz pensar mais na incapacidade cismática dossacerdotes rebelados do que na impossibilidade histórica do fenômeno.
Apesar de desmembrado em mil seitas pitagóricas, órficas, satânicas ou cristãs, de que dá uma pálida imagem o belo livro de Paulo Barreto – As Religiões no Rio -, ainda creio que nossa cultura religiosa venha vencer no mundo moderno a gélida concepção calvinista, que faz da América do Norte uma terra inumana, que expulsaCarlitos e cultiva McCarthy.
As Utopias são, portanto, uma conseqüência da descoberta do Novo Mundo e, sobretudo da descoberta do novo homem, do homem diferente encontrado nas terras da América.
A Utopia de Morus encerra uma curiosa critica das medidas políticas absolutistas, quando a supressão e o confisco dos conventos católicos pelo anglicanismo terrorista tinham eliminado todaespécie de assistência ao povo, vinda da tradição caritativa medieval.
Como sempre, em lugar de melhorar as condições sociais, o soberano procurava liquidar os sintomas a ferro e fogo.
Morus, que sofrera a influencia de Erasmo desde a Universidade de Oxford, encontrou o seu clima social no Elogio da Loucura, que ousava afirmar que a necessidade de ter exércitos de mercenários anima avadiagem. “Os ladrões não são maus soldados, nem os soldados piores que os ladrões, daí a relação que há entre as duas carreiras”.
Morus é o campeão de uma justiça que “destrua os crimes e conserve os homens”. Ataca sem medo os sabidos que acomodam a doutrina evangélica às paixões humanas. O seu cristianismo se reclama da revolução social que lhe deu origem. “Quase todos os preceitos de Jesuscondenam mais os costumes de hoje que todas as minhas criticas.” Evidentemente, toda a vida de Henrique VIII iria ilustrar esse reparo justo.
A geografia das Utopias situa-se na América. A não ser A Republica de Platão, que é um estado inventado, todas as Utopias, que vinte séculos depois apontam no horizonte do mundo moderno e profundamente o impressionaram, são geradas da descoberta da...
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