Lygia fagundes teles, desarrumando as nossas certezas

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  • Publicado : 23 de março de 2011
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Lygia Fagundes Telles, desarrumando as nossas certezas

Esther PS Rosado

“Ela escreve desarrumando nossas certezas, expondo nossos preconceitos, medos e desejos, às vezes sombrios, perversos e insanos, mas necessários para mostrar que somos capazes dos atos mais humanos e, ao mesmo tempo, vis e cruéis. Com isso, a autora fala da alma humana, da rede de obstáculos com que o homem se deparadiante da vida, do mundo.”
(Suênio Campos de Lucena, professor da UNEB)

Já há algum tempo, em algum lugar da net, estava lendo um artigo do professor Suênio Campos de Lucena, professor da UNEB, quando deparei com o trecho que reproduzo acima. A expressão mais encantadora do artigo era essa: “Ela escreve desarrumando nossas certezas(...)”. Continuei a ler vários artigos, mas aquela expressão doLucena não me saía da cabeça.

Há muito conheço a obra de Lygia Fagundes Telles, mas nunca gostei tanto dela como agora, leitora de quatro décadas e meia que sou, apaixonada por literatura que sou. Leio sobre Lygia, a autora, o ser humano, e chego cada vez mais à conclusão de que deveria tê-lo feito há muitos e muitos anos. Reli, por esses tempos, o seu livro de contos Antes do Baile Verde.Sempre imagino que este livro guarda as suas obras-primas no gênero conto : O menino- exemplar desvendamento da natureza humana, surpresas e angústias do viver -, O moço do Saxofone, A caçada – inquietante e bela narrativa – O Jardim Selvagem, Venha ver o pôr-do-sol, Os objetos.

“Ele escreve desarrumando nossas certezas(...)” Bela e terrível conclusão.
Nos contos citados acima, as certezas estãomais que desarrumadas e a vida procura explicações outras, os caminhos terríveis (ou serenos) do viver.

Mas escolhi para comentar o conto que considero o mais-que- perfeito: Os Objetos. A narrativa abre o Antes do Baile Verde, publicado pela primeira vez em 1970.

Se as narrativas de Lygia iniciam-se sempre com um fato aparentemente banal, esta não seria um exceção:
“Finalmente pousou oolhar no globo de vidro e estendeu a mão.
-Tão transparente. Parece uma bolha de sabão, mas sem aquele colorido de bolha refletindo a janela, tinha sempre uma janela nas bolhas que eu soprava. O melhor canudo era o de mamoeiro. Você também não brincava com bolhas? Hein, Lorena?
Ela esticou entre os dedos um longo fio de linha vermelha preso à agulha. Deu um nó na extremidade da linha e, com a pontada agulha, espetou uma conta da caixinha aninhada no regaço. Enfiava um colar.
- Que foi?”

Uma cena e o leitor se sente instigado a continuar. O narrador também é instigante e apresenta-se em terceira pessoa onisciente: tudo vê, traz à tona todas as sensações das personagens, sentimentos fundos e toda a gama de emoções. Esta é Lygia : o conto urbano, de características psicológicas, o queclaramente a consagrou na Geração de 45, em companhia de escritores como Clarice Lispector.

Lorena enfia um colar e Miguel segura entre os dedos um globo de vidro; enquanto espia lá dentro, ocorrem-lhe lembranças da infância; a linguagem é também infantil (“tinha sempre uma janela nas bolhas que eu soprava”), mas de um lirismo pungente, doloroso quase: “Você também, não brincava com bolhas?”Ela não presta atenção a ele que, em princípio, assemelha-se mais a uma criança : “Ele abria a boca, tentando cravar os dentes na bola de vidro. Mas os dentes resvalavam, produzindo o som fragmentado de pequenas castanholas.
- Cuidado, querido, você vai quebrar os dentes!”

A advertência assemelha-se à de uma mãe e seus cuidados; Miguel se comporta como a criança que, mais tarde descobriremos, asua condição psíquica impõe e registra:
“Ele rolou o globo até a face e sorriu.
- Aí eu compraria uma ponte de dentes verdes como o mar com seus peixinhos ou azuis como o céu com suas estrelas, não tinha uma história assim? Que é que era verde como o mar e seus peixinhos?
- - O vestido que a princesa mandou fazer para a festa.”

Mas são casados ambos,marido e mulher que ocupam o mesmo...
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