Luz nas trevas, um emaranhado de interpretações

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  • Publicado : 14 de janeiro de 2013
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Luz nas trevas, um emaranhado de interpretações

Moderno, transgressor e com um certo tom de homenagem, o longa metragem Luz nas Trevas entrou em cartaz em maio deste ano no circuito comercial, depois de ser exibido em muitos festivais nacionais e internacionais desde que fora produzido.
O tom de homenagem se dá ao fato do roteiro ter sido escrito pelo renomado cineasta brasileiro RogérioSganzerla, na década de 90, que faleceu antes que pudesse ver seu projeto concluído. Então, em um ambiente familiar, o filme agora é lançado com a direção de sua esposa, Helena Ignez, ao lado do diretor Ícaro Martins.
O trabalho de Sganzerla ficou muito conhecido na década de 60, quando produziu inúmeros filmes, todos ligados à estética do cinema marginal da época, dentre eles, O Bandido da LuzVermelha, lançado em 1968, marco no Brasil, cujas características e estilo foram ressuscitados pelo atual Luz nas Trevas.
De um modo mais especial do que uma simples continuação, o filme traz a trajetória do bandido Luz, interpretado por Ney Matogrosso, 35 anos depois do primeiro longa. O anti-herói, agora aparece numa prisão de segurança máxima, na qual viveu todo esse tempo, e comcaracterísticas muito peculiares para um bandido, transformando-o em um personagem bastante ficcional.
Além de ter o mesmo personagem principal, Luz nas Trevas traz de O Bandido da Luz Vermelha, a mesma irreverência cinematográfica, com uma enxurrada de informações, personagens cartunescos, uma trilha sonora inventiva, sintomas de protesto, sátira e quebra de alguns convencionalismos narrativos e estéticos.Mesmo com um estudo de roteiro que vem da década de 90, uma das características mais importantes do filme, é o seu comportamento atemporal, ou seja, o longa se mostra tão ou mais atual que uma obra que fosse escrita este ano, e expõe claramente as mazelas da sociedade, assim como o poder de transformação do brasileiro, bem retratado na nova personalidade do fora-da-lei interpretado por NeyMatogrosso.
Agora, anos depois, Luz, o bandido, volta transformado, mítico e aprimorado. O personagem aproveitou todo o tempo em que ficou preso, esquecido na cadeia, julgado pelos seus e por mais inúmeros crimes que nem cometeu, fato que atesta a corrupção dos que detém o poder, para estudar, praticar exercícios físicos, e se transformar em um ser humano capaz de filosofar sobre a sociedade.Essa mudança do anti-herói e a proposta da obra de aversão ao comodismo, aparece bastante nas narrações realizadas pelo personagem do bandido durante o filme, assim como é reforçada em cenas dele como a que o protagonista aparece em sua cela, totalmente nu, lendo um livro de Immanuel Kant, um dos muitos filósofos estudados e citados por Luz.
Já ao contrário do bandido, que segundo a própriadiretora do filme, Helena Ignez, se comporta quase que como uma espécie de Lampião na cidade de São Paulo¹, os policiais que teoricamente lutam para manter a paz dos cidadãos, são colocados com personagens escrachados, fanfarrões, como o delegado Cabeção, interpretado pelo músico Arrigo Barnabé, representando o poder corrupto tão presente e opressor no país.
Todas essas características, somadas aoataque ao comodismo e a fuga do modelo cinematográfico padrão com liberdade e criatividade, fazem Luz nas Trevas trazer à tona elementos do cinema marginal, praticado na década de 60 e grupo do qual participou O Bandido da Luz Vermelha.
Na época, os cineastas do cinema marginal, inclusive Rogério Sganzerla, nome forte deste movimento, tinham a preocupação de, apesar de com um fundo político,voltar-se mais a compor a identidade tropical e subdesenvolvida brasileira. O objetivo principal era expor a realidade com coragem de mostrar a alienação, a inconsequência e a arrogância da sociedade.
Os personagens mais comuns do cinema marginal são as prostitutas, os traidores, malandros, bandidos e tudo que ajudasse a criar a aversão do gosto dominante, atacando o comodismo das platéias bem...
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