Literatura

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PARA QUE serve a LITERATURA INFANTIL?
GRAÇA PAULINO**

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uando pais ou professores do Ensino Fundamental perguntam “afinal, que finalidade a leitura dessas historinhas pelas crianças pode ter?”, as respostas não são simples, nem diretas.

* Texto com apresentação e publicação eletrônica no 19º Encontro Nacional da ANPED (1996). º ** Professora da FAE UFMG. Ilustrações: Reproduçãode Matisse (Ícaro, 1947).

PARA QUE SERVE A LITERATURA INFANTIL?

Alguns responderiam, pensando bastante, que, sendo a literatura uma arte, funciona como a música, ou como a pintura: não tem finalidade prática e imediata. O pequeno leitor lê aqueles livros que lhe provoquem alguma satisfação no momento mesmo da leitura, livros que o envolvam prazerosamente com o texto, com o modo de contar ahistorinha, e, afinal, pela própria história contada, que pode impressionar, emocionar, espantar. Seria um desenvolvimento da sensibilidade, que ocorre na criança pelo próprio ato de ler o livro, apreciando-o. Essa resposta revela o respeito pelo mundo da arte, mostrando que a experiência artística não é só a do autor no momento em que escreve, mas também a do leitor. Para alguém definir assim arelação de um pequeno ser humano com um livro, quando este é uma obra de arte literária, é necessário pensar que isso – a apreciação artística – não é perda de tempo em nossa sociedade de hoje, em que a vida se faz de enigmas e de rápidas transformações. A arte nos permite conhecer melhor o exis-

tente, ao percebermos outras possibilidades de existir. Então, diriam alguns, assistir às novelas datelevisão também não seria perda de tempo! E os defensores da arte, mesmo de cara feia, teriam de concordar: as horas de lazer que se associam à invenção, à imaginação, ao faz-de-conta, são boas e importantes para as pessoas. Entretanto, alguém pode contra-argumentar, alegando que não considera novelas de tevê como obras de arte, porque são vulgares, repetitivas, forçadas. É que essa pessoa atéhoje não conseguiu ver valor em alguma novela, não se envolve, não se emociona. Para essa pessoa, realmente as novelas de televisão não têm tido valor artístico. Mas, para outros, têm. A validade artística de cada produção, seja um poema, seja uma peça de teatro, seja uma música, depende de quem a está “lendo”. Não há e nunca houve uma verdadeira arte que valesse o mesmo para todos no mundo, emtodas as épocas, porque as pessoas têm expectativas, preferências e repertórios diferentes. Além do mais, há as dife-

renças de critérios de valor que dependem fundamentalmente de cada época histórica. Imaginem o que representa hoje para o leitor comum uma obra como Os Lusíadas, do poeta português Camões, que viveu e escreveu seus versos há quatrocentos anos. Parece quase escrita em outra língua,parece quase impossível a leitura. O cidadão comum teria de passar por uma formação em literatura e história literária, além de obter noções de como trabalhar filologia e estilística na leitura de poesia, para conseguir uma leitura satisfatória de Os Lusíadas. Fica o valor da tradição, fica um reconhecimento intelectual de certas obras do passado, mas às vezes seu valor artístico concreto, fora daestante da biblioteca e das mãos de leitores de carne e osso, se perde. Ou se congela temporariamente. Perde-se a emoção, ao mesmo tempo lúcida e encantada da leitura e, sem esse conhecimento encantado, não há experiência artística, e, sem experiência artística, não há arte. A arte cadavérica dos museus e bibliotecas fechados ao público, aos quais é

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• PRESENÇA PEDAGÓGICA • v.5 n.25 •jan./fev. 1999

permitido apenas o acesso de especialistas, é uma arte que está, por enquanto, congelada, esperando que, algum dia, se faça possível sua ressurreição. Arte, diriam os “práticos”, arte para quê? É perda de tempo, é “frescura” de gente desocupada. Arte hoje não tem valor próprio, só vale se virar indústria e comércio, se tiver valor no mercado. Há muita discussão. Para as pessoas...
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