literatura e historia

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História e literatura, segundo Peter Gay:

apropriações da realidade
Ana Amelia M. C. Melo
Doutora em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Professora do Departamento de
História da Universidade Federal do Ceará (UFC). anamelia@gmail.com

História e literatura, segundo Peter Gay:
apropriações da realidade
AnaAmelia M. C. Melo
Gay, Peter. Represálias selvagens: realidade e ficção na literatura de
Charles Dickens, Gustave Flaubert e Thomas Mann. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, 184 p.



1
No Brasil podem ser citados,
de modo indicativo: CHALHOUB, Sidney (org.). A história contada: capítulos de história
social da literatura. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1998,
idem, Machado de Assis historiador. SãoPaulo: Companhia das
Letras, 2003, e PESAVENTO,
Sandra Jathay O imaginário da
cidade: visões literárias do urbano – Paris, Rio de Janeiro, Porto
Alegre. Porto Alegre, Editora
da UFRGS, 2002.

232

No âmbito acadêmico, no Brasil e no exterior, os trabalhos de Peter
Gay, historiador alemão radicado nos Estados Unidos desde a década de
1940, têm gerado, apesar das polêmicas que suscitaram, umacrítica quase
sempre favorável graças ao rigor de seus estudos e erudição, aliados a uma
narrativa clara e elegante. Seus trabalhos estão voltados para uma história
social das idéias e da sensibilidade nos séculos XVIII e XIX no mundo europeu. Neste livro, o autor segue trilha semelhante ao procurar pensar as
possibilidades de compreensão dessa sensibilidade por meio da literatura.
Seu tema é dedicadoespecificamente ao exame de três importantes obras
literárias: A casa sombria, de Charles Dickens, Madame Bovary, de Gustave
Flaubert, e Os Buddenbrook de Thomas Mann.
Na produção historiográfica recente, a literatura vem surgindo como
uma fonte que oferece importantes recursos de análise da sociedade.
Incorporada solidamente no conjunto de inovações de fontes, métodos e
problemáticas que háalgumas décadas transformaram a experiência da
pesquisa histórica, ela está presente hoje numa pluralidade de estudos
que pretendem compreender o intricado universo das experiências mais
subjetivas de homens e mulheres. Inserida no movimento da sociedade,
esta tem sido abordada desde o ponto de vista da materialidade do livro,
da localização social do escritor, de suas redes de interlocução, bem comonuma análise dos significados do texto, das representações da realidade
que ele traz.1 Em grande parte, esses estudos colocam uma questão central:
que relação pode ser estabelecida entre realidade e ficção? Esta pergunta
é o tema central do novo e sugestivo livro de Peter Gay.
Propondo-se a pensar o que os romances podem dizer ao historiador, o autor não deixa de chamar a atenção para a necessidadede uma
pesquisa acurada dos elementos “externos” ao texto, no dizer de Antonio
Candido, e que melhor podem situar as pistas apresentadas por uma obra
de ficção. Como documento de uma cultura e também limitada por esta,
a literatura, como toda produção artística, ainda que seja uma atividade
livre e criadora, tem sua matéria fundada na realidade mundana na qual se
movem os homens. Mais do que umarelação direta ou óbvia, ela deve ser
posta como uma complexa problemática que para o historiador significa
igualmente pensar a construção de seu conhecimento. Se a literatura pode
ser um “tesouro de conhecimento”, este, no entanto, não é evidente por
si. Para Peter Gay é preciso desconfiar, interrogar as palavras do escritor.
Dividido em três capítulos, além dos costumeiros prólogo e epílogo,Represálias selvagens vem enriquecer o repertório de debates, no campo da
história, em torno não apenas da importância da literatura como fonte, como
ArtCultura, Uberlândia, v. 13, n. 22, p. 231-234, jan.-jun. 2011

ArtCultura, Uberlândia, v. 13, n. 22, p. 231-234, jan.-jun. 2011

Resenhas

especialmente das complexas questões que se interpõem nessa relação.
Para empreender sua análise, Peter Gay...
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