Linguagem e conhecimento no cratilo de platao

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LINGUAGEM E CONHECIMENTO
NO CRÁTILO DE PLATÃO
Maria Aparecida de Paiva Montenegro 1
mariamonte_7@hotmail.com

RESUMO Ao final do diálogo Crátilo de Platão, deparamo-nos com a
constatação de que os nomes não seriam capazes de dizer a essência das
coisas, o que parece pôr em xeque a tarefa da filosofia pensada como atividade
de busca do conhecimento presidida pelo lógos. O presente artigopretende
mostrar que é possível entrever, a partir da própria construção dos elementos
que compõem o diálogo, sobretudo em sua dimensão dramática, indicações de
que a linguagem não é destituída de seu papel de viabilizar o conhecimento.
Palavras-chave Crátilo; Platão; Linguagem; Conhecimento.
ABSTRACT As we reach the end of Plato’s dialogue Cratylus, we face
the conclusion that names would failto express the real essence of things,
which seems to question the task of Philosophy conceived of as an activity in
search of knowledge controlled by logos. The present paper attempts to show
that it is possible to perceive, from the very construction of the elements that
make up the dialogue itself, mainly with regard to its dramatic dimension,
clues which suggest that language is notunable to play its part as knowledge
maker.
Keywords Cratylus; Plato; Language; Knowledge.

1

Professora de Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Ceará. Fortaleza, Brasil. Artigo
recebido em julho e aprovado em outubro de 2007.

KRITERION, Belo Horizonte, nº 116, Dez/2007, p. 367-377.

OS 4777 Revista Kriterion Num11683 83

24/1/2008 10:13:24

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Maria Aparecida dePaiva Montenegro

O Crátilo parece desconcertante a quem pretenda mostrar que é
inextrincável a relação entre linguagem e conhecimento, uma vez que
a argumentação levada a cabo conduz, ao final do diálogo, a um duplo
encurralamento: de um lado, os nomes, pensados como imitações da realidade,
guardariam significados ambíguos, de modo a poderem significar tanto a
imagem de uma realidade que épuro fluxo quanto a de uma que é sempre a
mesma (Crátilo 437c) – nesse caso, não haveria um critério legítimo capaz
de orientar a demarcação da verdade e, conseqüentemente, comprometeria
a possibilidade mesma do conhecimento; de outro, se os nomes imitam
a realidade e são a condição de acesso ao conhecimento da mesma, como
ter-se-iam estabelecido os primeiros nomes se aquele que assim os criou –o
nomoteta – não dispunha de nome algum que pudesse dar-lhe a conhecer a
realidade que passaria a nomear (Crátilo 438b)? Em resposta a essas aporias,
Sócrates propõe que se procure “outras entidades, para além dos nomes, que
nos mostrem, sem os nomes, qual dos dois grupos é o verdadeiro (a realidade
como fluxo ou como permanência), exibindo de forma clara a verdade dos
seres” (Crátilo 438d).O problema que imediatamente decorre de tal suposição é que, em
se tornando admissível a possibilidade de acesso às coisas mesmas sem o
intermédio dos nomes, o conhecimento passa a ser pensado como processo
que pode prescindir da linguagem (Crátilo 438e) e, por conseguinte, deixa de
se constituir como uma atividade eminentemente presidida pelo lógos. Estaria
Platão tentando apontar para ocaráter místico do conhecimento? Ou, então,
seria o Crátilo um diálogo incapaz de dar conta das questões que levanta?
Nesse caso, deve o leitor recorrer a respostas mais satisfatórias em diálogos
como o Sofista (260a), no qual ser e pensamento se tornam indissociáveis, além
de ampliar a discussão do âmbito dos nomes para o do discurso (Sofista 262b)?
E o que dizer da corajosa associação queMonique Dixsaut (2003) propõe
entre o Crátilo e o Fédon, considerando que neste se encontra explicitada
justamente o que parece faltar àquele, a saber, a suposta doutrina platônica das
formas e uma teoria da alma?
A partir dessa relação proposta por Dixsaut (2003), nossa hipótese é que
se pode depreender, do interior do próprio Crátilo, algumas pistas que nos
permitem, pelo menos, entrever...
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