Linguagem corporal

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A Linguagem Corporal1
Decio Tenenbaum2
Fala-se que o corpo deve ser um todo único e indivisível, criticamse alguns por dividirem-no em órgãos, outros são criticados por fazerem nele um dualismo corpo/mente, enquanto outros falam que nele existe um paradoxo corpo/mente.

Quando me convidaram para falar sobre esse tema, imediatamente comecei a me lembrar do meu curso médico e, pela primeiravez, realizei que o primeiro contato do estudante de Medicina com o corpo humano se dá através do corpo morto e depois com o corpo doente. Além disso, o ensino sobre o funcionamento orgânico fisiológico, isto é, o funcionamento corporal normal, objetiva tornar o futuro médico capaz de melhor identificar onde poderá estar a doença no corpo do seu futuro paciente. Minha conclusão foi óbvia: aexperiência médica com o corpo humano é viciada, já que o médico, desde os tempos estudantis, só tem contato com o corpo doente. Mas aí me perguntei: e com as pessoas em geral? Quando é que sabemos que o coração está batendo, quando é que sabemos que o intestino, a vesícula biliar, os rins, e etc, existem? É quase sempre quando não estão funcionando direito, não é? Será então que, em geral, só temos contatocom o corpo quando ele não está bem? Vocês poderiam dizer que meu raciocínio está errado porque eu, como quase todos os médicos, só citei órgãos e não o corpo. Vocês poderiam dizer que meu equívoco foi esquecer que o corpo é mais do que a soma dos seus órgãos. Eu concordo, mas mesmo assim, pergunto agora eu, quando é que percebemos que este corpo, que é mais do que a soma de suas partes, existe?Tenho a impressão que ele passa a existir , isto é, tomamos consciência que temos um corpo, nas situações de satisfação e/ou de sofrimento. Parece que no dia-a-dia, e quando está tudo bem, praticamente não sabemos da existência dele. Ele nada mais é do que o instrumento da nossa existência. Será mesmo? Vocês concordam? Acho que ninguém estranhou o tema dessa mesa redonda, estarmos aqui reunidospara discutirmos a questão do corpo. Mas, desde quando o corpo é uma questão? Para o ser humano, eu diria que desde sempre. Desde os tempos bíblicos estamos às voltas com a maneira adequada de lidar com as demandas corporais. Falam até que fomos expulsos do paraíso por causa delas. Por outro lado, não tenho notícia de que no reino animal haja algum outro vivente para o qual o corpo seja uma questão.Não tenho notícia que haja algum outro animal com este tipo de relação peculiar com seu próprio corpo. A Bíblia fala que todos os seres viventes foram criados por Deus e são o que são, à exceção do homem. Ele foi o único ser criado à imagem e semelhança de outro Ser. Nenhum outro vivente tem essa marca de nascença, o que quer dizer que o homem, nós, desde sempre e para todo o sempre não somosexatamente como os demais animais que obedecem instintivamente aos ditames do corpo. Em nós, humanos, os ditames corporais se expressam através de desejos e usamos nosso corpo como instrumento para a obtenção da satisfação desses desejos.
Escrito a partir da participação na mesa redonda "O Corpo: do Discurso Médico à Psicanálise", patrocinada pela Associação Brasileira de Medicina Psicossomática,regional RJ, e realizada na Universidade Santa Úrsula, RJ, 03.06.93. 2 Membro Efetivo, com funções didáticas, da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro.
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Isso posto, marcada a peculiaridade humana, para falar sobre o nosso tema “O Corpo: Do Discurso Médico à Psicanálise”, basta acompanhar o processo de humanização do corpo. Na Antigüidade julgava-se que tanto os fenômenosnaturais (físicos e biológicos) quanto os fenômenos propriamente humanos (comportamentos e expressões culturais) eram regidos por divindades, do bem ou do mal conforme a avaliação predominante na comunidade acerca do fenômeno em causa. Lá pelo século V a.C. surgiram em diferentes regiões pessoas que começaram a dar outras explicações para os fenômenos presentes na biosfera. Vou limitar-me aqui aos...
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