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[Machado de Assis]

Nesta história narrada em primeira pessoa, por um defunto autor, Machado de Assis nos mostra através da pretensa superioridade de seu protagonista - Brás Cubas - a precariedade da espécie humana.

1. Narrador

Os romances de Machado escondem várias armadilhas ao longo do processo de leitura, especialmente quando se trata de um leitor romântico, acostumado a confiar semquestionamento na onisciência do narrador - nas narrações em terceira pessoa - e na sua autoridade como testemunha ocular da história contada, no caso específico das narrações em primeira pessoa.

Memórias póstumas de Brás Cubas pertence a este caso, isto é, tem a narração em primeira pessoa; o foco narrativo centraliza-se no personagem-narrador, tornando-se difícil, assim, recusarmo-nos acrer no que conta.

Entretanto, uma das chaves para a leitura deste grandioso romance está justamente em desconfiarmos do narrador. Ao colocarmos em dúvida a veracidade do ato narrativo, começaremos a entender a estrutura do romance. Vejamos por quê: de um lado é um defunto autor, que conta a história de sua vida do além-túmulo, e assim dá a impressão de máxima isenção, de uma imparcialidadeabsoluta. De outro lado, simultaneamente, vai espalhando pelo texto algumas pistas que denunciam suas mentiras e seus exageros.

Vamos analisar, sob este aspecto, as partes iniciais dos capítulos I e II.

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelonascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a Segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo, Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.

Dito isto, expirei às duashoras da tarde de uma Sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia - penetrava um chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste,que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa idéia do discurso que proferiu à beira de minha cova: - "Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que têm honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul com um crepefúnereo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à Natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado.

Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei.

[cap. I - Óbito do autor]

Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma idéia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada,entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volitam que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te.

Essa idéia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade. Napetição de privilégio que então redigi, chamei a atenção do governo para esse resultado, verdadeiramente cristão. Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniárias que deviam resultar da distribuição de um produto de tamanhos e tão profundos efeitos. Agora, porém, que sou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos...
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