Laudo casa branca - bahia

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 32 (7800 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 28 de janeiro de 2013
Ler documento completo
Amostra do texto
 
1
ILÊ AXÉ IYÁ NASSÔ OKÁ
TERREIRO DA CASA BRANCA DO ENGENHO VELHO
LAUDO ANTROPOLÓGICO
DE AUTORIA DO
PROFESSOR DOUTOR ORDEP JOSÉ TRINDADE SERRA
DA UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
O ILÊ AXÉ IYÁ NASSÔ OKÁ, TERREIRO DA CASA BRANCA DO ENGENHO VELHO, é
tradicionalmente considerado, nos meios populares, o mais antigo templo afro-brasileiro
ainda em funcionamento. Os etnógrafos que seocuparam dele reconhecem que é
impossível precisar a data desua fundação (na Barroquinha), mas os cálculos baseados na
etnohistória e nos documentos disponíveis fazem-na remontar, no mínimo, à década de
1830 (COSTA LIMA, 1977; VERGER, 1992. BASTIDE, 1986), ou mesmo a inícios do
século XIX, senão um pouco antes (SILVEIRA, 2006). Sua comunidade de culto — o
Egbé Iyá Nassô— segue o rito nagôe se auto-identifica como um “candomblé ketu”, ou
“de nação ketu”. (COSTA LIMA, 1976 e 1999). No contexto, o designativo “nação ketu”
remete, por contraste paradigmático, a denominações como [nação] “ijexá”, “angola”,
“jeje” etc. No caso do egbéem questão, existe clara consciência de que a “nação”
corresponde a um indicador étnico, refere-se a um lugar de origem dos (principais)fundadores do culto. [Em outros domínios, no universo dos ritos afro-brasileiros, os
designativos “ketu”, “ijexá”, “angola” etc. conotam antes um modelo litúrgico, que se
sobrepõe à referência étnica quase a elidindo: ver a propósito Serra, 1995: 71: “O conceito
de nação tem duplo alcance: indica ao mesmo tempo uma tipologia de ritos e uma origem
étnica (...); a referência ‘etno-histórica’ podeestar mais acentuada em um caso do que em
outro”]. A comunidade do Terreiro do Engenho Velho mostra grande consciência do vetor
étnico de sua auto-designação. Ela também se identifica como nagô(“nós somos nagôs!”) e
 
2
reconhece, neste nível, sua relação de proximidade com os grupos de culto ijexá, que se
autodenominam com este etnônimo, evocativo de uma sociedade iorubana. Nagô, comose
sabe, é o etnônimo mais usual no Brasil para assinalar grupos ou sociedades iorubafones e
seus descendentes, ou antes, os seguidores de suas tradições, que formam aqui grêmios
religiosos. (SERRA,2005). O hieronímico do Terreiro da Casa Branca do Engenho Velho
faz referência a sua fundadora, Iyá Nassô, ainda hoje invocada nas preces do egbécomo Iyá
Nassô Oió Acalamabô Olodumaré. Osestudiosos reconhecem que “Iyá Nassô” vem a ser,
na verdade, um título: um dos mais importantes títulos sacerdotais femininos do Império de
Oió (COSTA LIMA, 1977; SILVEIRA, 2006), correspondente a um elevado posto
hierárquico, indicativo de alta projeção na corte do Alafin, e liga-se ao culto de Xangô[um
orixá, uma divindade do panteon ioruba, muito cultuado no Brasil (COSTA LIMA, 1977;ABRAHAM, 1958; MORTON-WILLIAMS, 1964; SMITH, 1969; BURT, 1977;
VERGER, 1987, 1999)]. Recentemente, Lisa Earl Castillo e Luis Nicolau Parès (2007)
sugeriram identificar a Iyá Nassô epônima do candomblé do Engenho Velho como uma
africana liberta, nagô, que tomou o nome de Francisca da Silva no Brasil, aqui permaneceu
por décadas e retornou a sua terra natal em1837; documentos encontrados nosarquivos
baianos parecem alentar esta hipótese. Tudo indica que Iyá Nassôe seu grupo de culto já
eram atuantes nos começos do século XIX, tendo provavelmente ocupado diferentes
espaços na cidade do Salvador, antes de estabelecer seu Ilê Orixána Barroquinha. Ilê Orixá
significa “santuário de orixá”; esta designação tanto pode ser usada para indicar o mesmo
queIlê Axécomo para indicar ossantuários individuais de diferentes orixásnum terreiro. A
palavra egbé(também grafada ebée assim pronunciada pelo povo-de-santo baiano) é outro
termo nagô incorporado ao dialeto dos terreiros da Bahia. Conforme a entendem seus
usuários, significa “sociedade”, “associação”, “comunidade” (CACCIATORE, 1981, s.v. ;
CASTRO, 2001, s.v.) . A expressão Egbé Iyá Nassô designa, pois, a comunidade de...
tracking img