Latim texto "a manifestação da escrita "

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A manifestação da escrita -
A manifestação escrita[1]
GIOVANNA LONGO


As manifestações do esquema lingüístico do latim, isto é, seu uso, como língua materna, por falantes legítimos, chegaram até nós por meio de registros escritos. Essa é uma importante questão que se impõe ao ensino e que deve ser atentamente considerada.
Os sistemas de escrita, como meiodesenvolvido para representar a fala, surgem pela necessidade de registro permanente da expressão. Entretanto, não se pode deixar de ressaltar que esses sistemas, além de serem estranhos ao sistema lingüístico, não são capazes de representá-lo de modo satisfatório. Realmente, os signos da escrita não são uma imagem gráfica muito adequada dos sons da língua.
Porém, pelo grande prestígio que aescrita tem nas sociedades humanas ditas “civilizadas”, o papel da escola foi, muitas vezes, o de inverter a ordem dos fatos:

quanto menos a escritura representa o que deve representar, tanto mais se reforça a tendência de tomá-la por base; os gramáticos se obstinam em chamar a atenção para a forma escrita. [...] O emprego que se costuma fazer das palavras “pronunciar” e “pronúncia” constituiuma consagração desse abuso e inverte a relação legítima e real existente entre a escrita e a língua. Quando se diz que cumpre pronunciar uma letra desta ou daquela maneira, toma-se a imagem por modelo. (Saussure, 2003, p.40)

Essa prática, muitas vezes, acarreta a distorção da imagem que o falante constrói da língua, uma vez que é levado a ver no signo gráfico a regra para os fatoslingüísticos.
Os desacordos existentes entre a representação gráfica e a fala oral, no caso de uma língua sem falantes naturais vivos como o latim, impõem lacunas irreparáveis ao seu aprendizado. A quantidade das vogais latinas era um traço distintivo, portanto, um dado formal, tal como para falantes de português o é a distinção entre vogais abertas e fechadas, por exemplo. Jamais umfalante moderno saberá pronunciar as vogais longas e breves do latim de modo a percebê-las como fonemas, isto é, como sons cuja distinção seja associada à diferenciação de significados, tal como ocorria naturalmente para um romano.
Em um verso como o que segue, tomado da Eneida[2], de Virgílio, destaca-se uma forma verbal com a qual se pode ilustrar essa questão:

Italiam fatoprofugus Lauiniaque uenit (I, 2)

Como quer que o verso seja lido, um falante moderno não será capaz de distinguir se esse uenit (uenire, vir, chegar) é a forma do presente, cuja primeira sílaba é breve (uĕnit), ou a do perfeito, em que a primeira sílaba é longa (uēnit). Nesses casos, a leitura moderna do latim só permite que se reconheçam as mesmas letras, ou grafemas, para arepresentação de sons que eram, para o ouvido de um romano, claramente distintivos.
À atualidade restou como último recurso para o entendimento da prosódia latina os dados de métrica fornecidos pela escola. É somente por meio de práticas metalingüísticas que é possível reconhecer a distinção longa/breve. Assim, para que um estudante moderno saiba que o verbo uenit, naquela passagem de Virgílio,está no perfeito do indicativo, é necessário um conhecimento teórico que lhe permita escandir o verso:
Ītălĭ|ām || fā|tō prŏfŭ|gūs || Lā|uīniăquĕ| uēnĭt

E toda a carga significativa da prosódia latina fica, assim, reduzida a uns poucos dados escolares que, por terem um fim em si mesmos, ficam sujeitos a serem tomados mais como elementos de pura erudição do que como parte de umateoria, se esta for entendida como “conjunto de preceitos que servem de guia à prática”. As lições de prosódia, fundamentais na prática de qualquer língua estrangeira, no latim, não vão além do que uma descrição metalingüística pode proporcionar. A esse respeito vale destacar aqui a seguinte afirmação de Lima:

Uma coisa é, de fato, emitir as palavras de um texto, articulando-as segundo a...
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