Kierkegaard

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  • Publicado : 30 de outubro de 2011
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INTRODUÇÃO

Estudar o pensamento kierkegaardiano é uma tarefa relevante e desafiadora por se tratar de um filósofo complexo que faz com que o ser humano reflita em torno das problemáticas e indagações levantadas. Ao pesquisar, de relance, os pressupostos teóricos uma das perguntas que soa no ar é a seguinte: Como pensar o existente singular? Como engendrar reflexão e autorreflexãosuperando um olhar meramente abstrato?
A obra de Kierkegaaard, de modo geral, perpassa diversas esferas do saber, contemplando tanto as dimensões filosóficas quanto as esferas teológicas e psicológicas. Nascido em 1813, início do século XIX, Kierkegaard é tido como o precursor do existencialismo. É um crítico à profissionalização da filosofia e parece retomar Sócrates em busca de umfundo (princípio) que explique o mundo ordenado, resgatando a questão da ironia e dialética.
Devido ao fato de ser um pensador multifacetado é difícil enquadrá-lo em alguma corrente teórica ou religiosa. Para Kierkegaard, no limiar do século XIX, o existente singular está esquecido porque a modernidade está doente em virtude da objetividade mal aplicada. É preciso, de alguma forma, recuperá-la e,com isso, retirar as ilusões, buscar a verdade que não está dada. Há uma ditadura do conhecimento objetivo: a filosofia está distante de um ser humano existente. Em termos cristãos, está no pecado.
O filósofo Hegel é duramente criticado por Kierkegaard que chega a culpá-lo pelas contradições que envolvem a existência. Segundo Kierkegaard a filosofia hegeliana se torna incompetente para pensar aexistência por tentar colocá-la dentro de um conceito. Até que ponto o conceito consegue abarcar a existência? Para Hegel só o absoluto é o verdadeiro e, portanto, causa uma polêmica contra a fé porque a razão ocupa todo o espaço, ao passo que Kierkegaard, na obra Temor e Tremor, elucida que a razão tem limites e apresenta o itinerário de Abraão. Ver-se-á que, aos olhos da ética, Abraão é umassassino e, aos olhos da fé, é um modelo.
Pode-se dizer que a história de Abraão comporta uma suspensão teleológica da moral. O homem pode chegar a ser um herói trágico, pelas suas próprias forças, mas não um cavaleiro da fé.

1 – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

1.1 – SOREN KIERKEGAARD E O CAVALEIRO DA FÉ

E Deus disse: “Abraão! Ele respondeu: Eis-me aqui! Toma teu filho, teuúnico, que amas, Isaac, e vai à terra de Moriá, e lá o oferecestes em holocausto sobre uma montanha que eu te indicarei”. [1] Abraão acreditava firmemente que Deus o havia feito uma promessa: ser o pai das nações, precursor de um povo santo. Assim, confiante, Abraão passou toda a vida como peregrino e viajante esforçando em cumprir a promessa de Deus. Em vários momentos, Deus se comunica com Abraão ochamando de servo bom e fiel. Seu filho, Isaac, é fruto de uma promessa: Sara não podia ter filhos na velhice e, por intervenção divina, ela dá a luz a um menino, seu filho único.
Como negar um pedido de Deus? Talvez Abraão não tenha questionado Deus com “porquês”. Ele cumpriu, no silêncio, o sacrifício. Um silêncio angustiante visando exercer um dever para com Deus. Kierkegaard, tomandocomo pseudônimo Johannes de Silentio parece revelar que diante deste paradoxo em que situa Abraão o que resta é o silêncio. Dessa forma, em Temor e Tremor, toma a trajetória de Abraão como referência para refletir sobre o homem singular. A questão é posta sobre o ponto de vista da transgressão da ética.
Abraão chegou ao nível ético da existência. No sacrifício de Isaac está em jogouma espécie de moral heterônoma. Abraão é submetido à lei de um outro, de um totalmente outro, que é próximo, mas que também é distante. O ético é um obstáculo, mas é indispensável à singularização, o que não implica que Kierkegaard vai negar o ético. A vida ética é um momento imerso no processo de singularização. Em suma, a história de Abraão é o seu itinerário. Abraão está numa alteridade...
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