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Éticas teleológicas

Thomas Hurka
Universidade de Toronto
Tradução de Luís Gottschalk
As teorias sobre o que é correcto ou errado dividem-se habitualmente em duas categorias: as teleológicas e as não teleológicas. As teorias teleológicas são as que identificam primeiro o que é bom nos estados de coisas, caracterizando depois os actos correctos apenas em termos desse bem. O exemploparadigmático de uma teoria teleológica é, assim, uma teoria consequencialista imparcial, como o utilitarismo hedonista; defendido por John Stuart Mill (1969) e Henry Sidgwick (1907), afirma que a acção correcta é sempre aquela cujas consequências implicam a maior soma possível de prazer. Porém, a noção de ética teleológica é normalmente considerada mais ampla que o consequencialismo, podendo existir teoriasteleológicas que não sejam consequencialistas, o que pode ser entendido de diferentes maneiras.

O utilitarismo hedonista apresenta três aspectos fundamentais. Em primeiro lugar, identifica os estados de coisas bons independentemente de considerações sobre o que é correcto ou não, de modo que até mesmo o prazer proporcionado por um acto errado, por exemplo o prazer sádico obtido pela tortura, éconsiderado intrinsecamente bom; e estes bens são sempre consequência dos actos que os produzem, isto é, estados de coisas independentes que se seguem dos actos. Em segundo lugar, ao avaliar as consequências, o utilitarismo considera imparcialmente os prazeres de todas as pessoas, de modo que, para qualquer um, o prazer de um estranho conta tanto como o de um filho ou, até, o seu próprio prazer.Finalmente, o utilitarismo caracteriza as acções correctas exclusivamente em termos da promoção do bem e, mais especificamente, da sua maximização, de modo que a acção correcta é sempre a que promove o maior bem possível.

Apesar de as teorias teleológicas terem de identificar o bem independentemente do que é correcto ou não, reconhecem muitos bens distintos do prazer. Alguns dos bens possíveis,por exemplo o conhecimento e a criatividade artística, são, tal como o prazer, estados de pessoas individuais. Outros envolvem padrões de distribuição entre pessoas, de modo a terem prazeres equivalentes ou, de outro ponto de vista, prazeres proporcionais ao seu mérito. No entanto, outros bens, como a existência de beleza ou de ecossistemas complexos, são independentes das pessoas. (Osconsequencialismos ideais, de G. E. Moore (1903) e de Hastings Rashdall (1907), admitem bens destes três tipos). Estes bens são todos, tal como o prazer, consequências dos actos que os produzem, mas outros bens não o são. Imagine-se que uma teoria valoriza as actividades difíceis por serem difíceis. Então, empenhar-se numa actividade difícil, jogar xadrez por exemplo, promoverá o valor não apenas porproduzi-lo como uma consequência externa, mas também por ser um caso particular do valor ou por ter a dificuldade como propriedade intrínseca. O mesmo se pode dizer se a teoria valorizar a acção que procede de uma motivação virtuosa, como o desejo benevolente relativo ao prazer de outrem. Neste caso, um acto de benevolência contribuirá para o valor em parte por causa de uma propriedade intrínseca — ofacto de ser benevolente. Eis uma primeira forma de uma teoria poder ser teleológica sem ser consequencialista: se o consequencialismo apenas pode valorizar as consequências externas dos actos, como se presume em algumas definições, então uma teoria que valoriza propriedades intrínsecas dos actos está conforme com o sentido mais amplo de ética teleológica, mas não com o sentido mais estrito. Podeainda avaliar os actos com base no estado global do mundo que resulta da sua execução, mas algumas propriedades relevantes desse estado são intrínsecas aos actos.

Uma teoria teleológica pode também abandonar o segundo aspecto do utilitarismo — a imparcialidade relativamente ao bem. Assim, uma teoria teleológica pode ser egoísta, aconselhando os agentes individuais a promoverem apenas o seu...
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