Josue fachusc

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ENTREVISTA

A GUERRA EM SURDINA DE BORIS SCHNAIDERMAN Uma entrevista e algumas interferências
Antonio Pedro Tota* César Campinani Maximiano** Adriano Marangoni***

Boris Schnaiderman, ucraniano de nascimento e brasileiro por adotar a nacionalidade, é bastante conhecido no meio acadêmico e literário pelas primorosas traduções de Tostoi, Dostoievski, entre outros da literatura russa, eresponsável pela criação do curso de Língua e Literatura Russa da Universidade de São Paulo (USP). Boris nasceu na Ucrania no mesmo ano em que eclodiu a Revolução Russa. Mas há um lado do professor Boris Schnaiderman que não é tão conhecido como sua produção acadêmico-literária. Ele foi um soldado que lutou nos campos de batalha europeus durante a Segunda Guerra Mundial e registrou experiência decombatente num livro ficcional chamado Guerra em surdina, que teve várias edições, a última pela editora Cosac & Naify. Boris Schnaiderman – Eu vim ao Brasil com 8 anos, em 1925. Meus pais saíram legalmente da União Soviética – naquele tempo isso era muito difícil, mas houve um curto período em que se conseguia. Nós viemos com passaporte soviético. Ficamos primeiro no Rio de Janeiro e, depois de algunsmeses, viemos para São Paulo. Meu pai era comerciante e, por isso, não se dava bem com o sistema, o que é natural. Porém, no período da nova política econômica (NEP), ele se virou bem, tanto é que lá vivemos muito bem. Vivíamos até em condições privilegiadas, pode-se dizer. Lembro-me, por exemplo, da fome na Rússia, mas também me lembro que, em casa, passávamos bem. Na Ucrânia, morávamos em Odessa,que apesar de ucraniana é uma cidade tipicamente russa. Pelo menos era assim, naquela época. Não sei como é hoje. Eu ouvia ucraniano na

Proj. História, São Paulo, (30), p. 327-342, jun. 2005

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rua, mas ucraniano, para mim, era algo completamente estranho. Viemos para cá. Os primeiros anos foram difíceis, pois tínhamos grandesdificuldades financeiras. Estudei no Mackenzie. Quando eu tinha 17 anos, meu pai resolveu mudar-se de novo para o Rio de Janeiro. Por certa imposição de meus pais, eu fiz o curso de Agronomia. Eu não queria estudar agronomia, mas, naquela época as famílias faziam questão que os filhos – como eram de famílias de emigrados – tivessem uma ocupação que se considerasse e fosse viável. Porque, por exemplo, fazerfaculdade de filosofia era considerado “perfumaria”. Formei-me Engenheiro Agrônomo em 1940. Para registrar o diploma, deveria me naturalizar e fazer o serviço militar. Foi difícil essa naturalização porque tínhamos poucos recursos. Então, eu mesmo fiquei andando por repartições para cuidar disso. A minha naturalização saiu e eu precisava ainda fazer o serviço militar. Eu queria ir para a guerra, enão fui como voluntário, fui convocado. Mas eu queria ir para a guerra de qualquer maneira e fiz tudo para isso acontecer porque eu poderia fazer linha de tiro. Lá em casa não se entendia muito essa diferença, então eu me alistei no exército. Alistei-me diretamente no exército porque ali eu sabia que iria para a guerra. Quando era para preencher os formulários, uma vez por ano, no dia dosreservistas, todos os reservistas tinham que comparecer e preencher esses formulários. Então, perguntava-se: “Que língua você conhece?”. Eu afirmava que sabia inglês, francês, ou seja, sabia de tudo. “Sabe datilografia?”. “Sei, eu sou um bom datilógrafo”. Que nada, eu parecia que catava milho... Eu arranhava um pouquinho o inglês e o francês. Então, fui convocado. Fiz o serviço militar no exército emorava em Copacabana. Meu quartel era em Campinhos, perto de Cascadura. Levantava de madrugada, às 4hs da manhã, e entrava no quartel às 7hs. Lá eu fiz o curso de sargento. Era evidente que eu seria convocado. Fui convocado quase às vésperas do embarque para me incorporar à FEB. As condições históricas levaram Boris Schnaiderman e cerca de outros 15 mil combatentes a enfrentarem os nazistas nos...
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