Jean genet

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  • Publicado : 7 de janeiro de 2013
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O destino libertário de Jean Genet

O autor de Querelle e Nossa Senhora das Flores encontrou no filósofo Jean-Paul Sartre, autor de Saint Genet – Ator e mártir, o intérprete ideal de sua transubstanciação da dor e da perversão em uma forma de exercício e escolha da liberdade.

Carlos Eduardo Ortolan Miranda

Divina: – De tanto repetir para mim que não estou viva, aceito o fato das pessoasnão mais me considerarem.
Jean Genet

O pária escreve uma poesia corrosiva, de acidez clássica, de beleza terrível. O pederasta, o ladrão, o mendigo, o enjeitado, o encarcerado prestes à condenação perpétua (como se esta já não lhe fizesse parte da alma) produz literatura. Nossa Senhora das Flores, Querelle, Pompas fúnebres, uma literatura que é física, mineral, poesia-objeto, poesia-corpoque só se refere ao concreto e que, por isso mesmo, nos alcança. Que é recusa e desprezo. Pecado mortal, decisão pela recusa e desejo de desespero. Não. Mais grave. Esperança no Mal. Santificação do estigma que lhe foi gravado com o ferro em brasa da acusação das Pessoas Honestas. Que nos atinge como um soco. Que alimenta nossos fantasmas mais íntimos. Literatura abismal, palavra que não liberta,Evangelho dialeticamente transmutado ou que, por outra via, descortina um salto de liberdade possível, necessariamente possível, que é inaceitável em sua sedução transgressora. A demonstração axiomática da liberdade humana é uma infâmia inconcebível. Exibir a essência ineludível da liberdade é o pecado original de Genet. E isso através de uma ordem rigorosa que é o lado oculto da ordem, é umcartesianismo às avessas, uma moral religiosa com sinal trocado. No jardim dos caminhos que se bifurcam, Genet escolhe a face escura da lua, os raios de um sol negro.

O condenado que recusa a história e assume o mito exibe impudente suas chagas, o vagabundo oficiante transubstancia a dor e a perversão. Pecado tão mais horrendo, pois sempre é inversão do dogma: sacraliza o ímpio e goza através do que érecusa social. Refina até o limite, com um racionalismo irretorquível, a face malévola refletida no espelho da reta via burguesa. Não é um simples sofista a exercitar habilidades discursivas para uma platéia de doutos, pois Genet não tem pares. A solidão fundamental é um estigma em sua própria carne. Jean Genet é um criador de palavras eficazes, no sentido mais grave do termo. Assassinos oficiamliturgias do crime, o carrasco excita o escritor onanista, o lirismo se produz por intermédio da realização poética do reverso da consciência burguesa, mas, e de novo, é a reafirmação do inescrutável que vem à luz, e que nela se incrusta. O verbo se faz carne, mas herética. A palavra hábil é litania, e torna a corrupção o canto sacramental na catedral dos marginais de Genet. Não gostaríamos deouvir essa harmonia da perversidade que não é caos, pois o caos é ininteligível. O ladrão nos atira nas faces tranqüilas que a liberdade é inescapável. “Liberdade é maldição possível, homens honestos”, diz-nos Genet: o silogismo assustador é que a opção pelo crime, pelo que há de obscuro e soturno em nós, realiza-se ao provarmos o fruto acerbo por meio do qual essa literatura expõe a neutralidadeessencial do conceito de liberdade que agora nos assedia e se clarifica, ofertado pela voz agônica do excluído: está a nos espreitar sob as gravatas e os horários, repousa na paz dos lares, oculta-se sob a face da presumida inocência.

Jean Genet é um mistério. Jean Genet nos apavora.

É justamente o mistério representado pela contradição aparente (no limite, que poderia ser associada a meropreconceito ideológico) entre a grandeza da obra e o destino marginal de seu criador que desperta o interesse de Jean-Paul Sartre. Em seu grandioso ensaio de crítica da obra de Genet, que originalmente surgiu como introdução às obras completas daquele pela Editora Gallimard, Saint Genet – Ator e mártir (editora Vozes), o filósofo francês discorre, por mais de quinhentas páginas, sobre o mistério...
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