Jardim do eden

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Jardim do Éden revisitado
Roque de Barros Laraia Universidade de Brasília

RESUMO: Análise do mito de Lilith, primeira esposa de Adão, segundo a tradição judaica, que foi expurgada do texto, hoje conhecido, pela censura dos editores bíblicos que procuraram adequar o livro sagrado aos valores e padrões morais de suas épocas. O Autor mostra que esses cortes não foram suficientes para apagartotalmente a figura de Lilith da tradição oral e, muito menos, de alguns textos rabínicos. No decorrer deste mito fica claro que, ao consumir o fruto proibido, Adão adquiriu o conhecimento do bem e do mal e não apenas o da sexualidade. Mas, o mais importante é o fato que Lilith representa a primeira reação feminina ao domínio masculino. PALAVRAS-CHAVE: Mitologia cristã, demônio feminino, livrosapócrifos.

Claude Lévi-Strauss cautelosamente evitou a realização de uma análise estruturalista do Gênesis, sob a alegação de que “a mitologia do Velho Testamento foi distorcida pelas operações intelectuais dos edi-

ROQUE LARAIA. JARDIM DO ÉDEN REVISITADO

tores bíblicos” (Leach, 1983:74), além do fato de considerar o contexto etnográfico como “quase inteiramente ausente” nos referidos textos.Esta argumentação foi refutada por Leach em seu brilhante artigo “A Legitimidade de Salomão”(Id., ibid.), no qual demonstrou a existência na Bíblia de evidências etnográficas passíveis de serem analisadas pelo método antropológico, além da consideração que a seqüência cronológica que foi estabelecida pelos “editores” tem, “por si mesma, um significado estrutural”. Concordamos com Leach sobre adisponibilidade do material bíblico para a análise antropológica e também que os antropólogos, que utilizam os mitos de outras religiões, devem abandonar o seu “melindre extraordinário com a análise do Cristianismo e do Judaísmo que são religiões nas quais eles próprios, ou seus amigos próximos, estão profundamente envolvidos.” (:136). Retomamos, portanto, neste trabalho, o texto bíblico do Gênesis,buscando demonstrar que os “editores bíblicos”, através do tempo, procuraram mediante uma atitude censorial uma espécie de “pasteurização”1 do discurso original, numa tentativa de adequá-lo aos valores morais e culturais de suas respectivas épocas. Contudo, os trechos que foram objetos de cortes não tiveram o seu registro totalmente apagado, continuam disponíveis em outros textos, principalmente osda religião Judaica. A legitimidade etnográfica deste material pode ser invocada, pois o Cristianismo é uma religião derivada do Judaísmo, partilhando com o mesmo o discurso mítico contido no Velho Testamento. Ao retomarmos a análise das histórias que têm como cenário o Jardim do Éden seguimos a trilha aberta por Frazer, Freud e principalmente o próprio Leach (1970), mas, ao contrário destesautores, pretendemos utilizar os trechos que foram extirpados nas sucessivas edições do discurso mítico. No sétimo dia da Criação, Deus criou o homem à sua imagem: “à imagem de Deus o criou: macho e fêmea os criou.” (Gênesis, 1,27).

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REVISTA DE ANTROPOLOGIA, SÃO PAULO, USP, 1997, V. 40 nº1.

Tal afirmação categórica é uma negação da versão mais difundida: a de que o homem foi criadoantes da mulher. Neste ponto, existem interpretações diferentes. A primeira é a de que Adão seria um ser andrógino (macho e fêmea) e que a separação de Eva representaria a cisão da criatura original andrógina em duas (Unterman, 1992:25). A androginia de Adão é explicada em alguns textos rabínicos, como no Sepher Ha-Zohar, que contêm a afirmação de rabi Abba: “O primeiro homem era macho e fêmea aomesmo tempo pois a escritura diz: E Elohim disse: façamos o homem à nossa imagem e semelhança (Gênesis, 1,26). É precisamente para que o homem se assemelhasse a Deus que foi criado macho e fêmea ao mesmo tempo”2. Existe, contudo, uma outra interpretação, que nos parece mais fascinante, a de que, a exemplo do que foi feito com os animais, Deus teria criado um casal: Adão e uma mulher que antecedeu...
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