Islan

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Então, não há por que continuar difundindo essa idéia mais do que absurda de que
“brasileiro não sabe português”. O brasileiro sabe o seu português, o português do
Brasil, que é a língua materna de todos os que nascem e vivem aqui, enquanto os
portugueses sabem o português deles. Nenhum dos dois é mais certo ou mais errado,
mais feio ou mais bonito: são apenas diferentes um do outro e atendemàs
necessidades lingüísticas das comunidades que os usam,necessidades que também
são... diferentes!
Em seu livro Emília no País da Gramática, publicado em 1934, Monteiro Lobato já
chamava a atenção para esse tipo de preconceito (que no entanto continua firme e
forte no Brasil de hoje!). Numa conversa com as crianças do Sítio do Pica-pau
Amarelo, a velha Dona Etimologia lhes diz (pp.100-101):
[...] Uma língua não pára nunca. Evolui sempre, isto é, muda sempre. Há certos
gramáticos que querem fazer a língua parar num certo ponto, e acham que é erro
dizermos de modo diferente do que diziam os clássicos.
— Quem vem a ser clássicos? — perguntou a menina [Narizinho].
— Os entendidos chamam clássicos aos escritores antigos, como o padre Antônio
Vieira, Frei Luís de Sousa, o padre[pg. 32]
Manuel Bernardes e outros. Para os carranças, quem não escreve como eles está
errado. Mas isso é curteza de vistas. Esses homens foram bons escritores no seu
tempo. Se aparecessem agora seriam os primeiros a mudar, ou a adotar a língua de
hoje, para serem entendidos. A língua variou muito e sobretudo aqui na cidade nova [o
Brasil]. Inúmeras palavras que na cidade velha [Portugal]querem dizer uma coisa,
aqui dizem outra. [...] Também no modo de pronunciar as palavras existem muitas
variações. Aqui, todos dizem PEITO; lá, todos dizem PAITO, embora escrevam a
palavra da mesma maneira. Aqui se diz TENHO e lá se diz TANHO. Aqui se diz
VERÃO e lá se diz V'RÃO.
— Também eles dizem por lá VATATA, VACALHAU, BACA, VESOURO —
lembrou Pedrinho.
— Sim, o povo de lá troca muito o vpelo B e vice-versa.
— Nesse caso, aqui nesta cidade se fala mais direito do que na cidade velha —
concluiu Narizinho.
— Por quê? Ambas têm o direito de falar como quiserem, e portanto ambas estão
certas. O que sucede é que uma língua, sempre que muda de terra, começa a variar
muito mais depressa do que se não tivesse mudado. Os costumes são outros, a
natureza é outra — as necessidades deexpressão tornam-se outras. Tudo junto força
a língua que emigra a adaptar-se à sua nova pátria.
A língua desta cidade [Brasil] está ficando um dialeto da língua velha. Com o correr
dos séculos é bem capaz de ficar tão diferente da língua velha como esta ficou
diferente do latim. Vocês vão ver.
Monteiro Lobato, que morreu em 1948, estava muito mais por dentro das noções da
lingüística moderna doque muito autor de gramática que está por aí hoje, “vivo e
bulindo”, como se diz no Nordeste... [pg. 33]
É espantoso que a figura do gramático autoritário e intolerante — ridicularizado por
Lobato na personagem do professor Aldrovando Cantagalo, em seu delicioso conto “O
colocador de pronomes”, de 1924 (!) — tenha voltado à cena neste fim de século, sob a
roupagem enganosamente moderna datelevisão, do computador e da multimídia. [pg.
34]
Mito n° 3
“Português é muito difícil”
Essa afirmação preconceituosa é prima-irmã da idéia que acabamos de derrubar, a
de que “brasileiro não sabe português”. Como o nosso ensino da língua sempre se
baseou na norma gramatical de Portugal, as regras que aprendemos na escola em boa
parte não correspondem à língua que realmente falamos eescrevemos no Brasil. Por
isso achamos que “português é uma língua difícil”: porque temos de decorar conceitos
e fixar regras que não significam nada para nós. No dia em que nosso ensino de
português se concentrar no uso real, vivo e verdadeiro da língua portuguesa do Brasil é
bem provável que ninguém mais continue a repetir essa bobagem.
Todo falante nativo de uma língua sabe essa língua. Saber...
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