Indivíduo, sociedade e genialidade:

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  • Publicado : 26 de junho de 2011
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A questão da relação entre indivíduo e sociedade foi sempre algo muito presente e controverso na sociologia, um grande número de autores enfrentou o problema e, não fosse o exagero da assertiva, diríamos que há tantas soluções quanto são os autores que se depararam com o desafio. Norbert Elias, sem medo de repisar um terreno já tão freqüentado, voltou ao tema atacando a questão de formainovadora, sem recorrer às soluções já aventadas, nem aos chavões que pretensamente desfaziam as dificuldades. Além disso, ignorou solenemente o tabu que ditava o severo distanciamento entre sociologia e psicologia, recompondo o objeto conforme uma configuração própria e não ao sabor dos ditames das disciplinas e seus ‘foros de competência’.

A construção teórica de Elias sobre a questãoindivíduo/sociedade explora as relações dinâmicas entre os termos – e suas caracterizações – em distintas sociedades e tempos históricos. Ademais, propõe também uma dificuldade superior, objeto de outro trabalho, mas que está profundamente imbricado com a análise referida: Após lidar com a espinhosa questão da relação indivíduo/sociedade, e estabelecer as configurações e modos de articulação possíveis entre ostermos, como lidar com a incômoda figura do indivíduo que – possuidor de características especiais, talento e peculiaridade – ameaça transpor as barreiras que limitam a ação do homem singular numa sociedade? A saber, como lidar com a perturbadora figura do gênio que, em sua condição individual, extrapola os limites do homem comum e avança vorazmente sobre as rédeas da história, tentando influenciá-ladecisivamente?

Ao abordar o caso Mozart, Norbert Elias leva o problema às últimas conseqüências e, estudando um indivíduo, espreita os limites e as formas de relação possíveis entre um homem e a sociedade à qual pertence, entre a sua condição e as suas possibilidades, entre a sua vontade e os parâmetros sociais.

Norbert Elias: indivíduo e sociedade

As considerações de Norbert Elias sobreessa controversa questão possibilitam criticar as formas como geralmente é equacionada e aponta para a influência negativa que as ciências naturais (ainda) exercem sobre as ciências sociais: freqüentemente, o problema é colocado como o cotejar entre substâncias distintas – Indivíduo vs. Sociedade –, essências puras e indissociáveis, entes em oposição. Desse modo, afirma-se equivocadamente oprimado de um ou de outro, tomando-se, por um lado, a sociedade como uma generalidade intransponível e impossível de ser decomposta e, por outro lado, o indivíduo como algo atomizado, não suscetível de ser universalmente considerado. Daí a tensão estéril entre os termos, o duelo ad nauseum entre substâncias irredutíveis e não intercambiáveis.

Em vez de tomar tais termos como substâncias isoladas,Elias considera as suas relações e funções, o que implica tomar os termos de modo relacional e dinâmico, fundindo-se e refundindo-se, integrando-se e distinguindo-se, em contínua interação. Tal forma de abordagem, obviamente, supõe desfazer o nó que impede o fluxo do pensamento do âmbito da sociologia para o da psicologia e vice-versa. O próprio título do principal trabalho do autor sobre o tema jádá suficiente noção de sua caracterização do problema: em “A sociedade dos indivíduos” (1994), Elias deixa claro que a sociedade é formada por indivíduos e estes são constituintes da sociedade – ambos inexoravelmente imbricados, não sendo possível considerar os termos separadamente. Afirma ele que não há sociedade sem indivíduos e, analogamente, não há indivíduos sem sociedade. Portanto, seria um“absurdo” tomar os termos de outro modo que não aquele da cumplicidade.

Os indivíduos, conforme seus habitus, são integrantes/constituintes da sociedade, modelando-a e modelando-se ao relacionarem-se uns com os outros, pois esse ‘atrito’, essa relação tensa, dinâmica e mútua entre os indivíduos configura o que chama de fenômeno reticular. Tal processo de individuação não é o mesmo em...
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