Identidade de gênero, diferença e patriarcado

Páginas: 11 (2628 palavras) Publicado: 6 de outubro de 2011
Identidade de gênero, diferença e patriarcado

Interrogando a identidade de gênero

Nas últimas décadas do século XX, ocorre uma expansão dos movimentos sociais de base identitária. Como argumenta Celi Pinto (2000), inicia-se um processo contraditório e complexo, por um lado, de reconhecimento da democracia como valor, por outro, os princípios de universalidades são percebidos como umobstáculo à promoção dos novos direitos comprometendo a compatibilização entre igualdade e diferença. Nancy Fraser, Íris Young e Anne Phillip estão entre as teóricas feministas críticas à democracia liberal ao refletirem a questão da participação política justa dos excluídos e dos novos direitos e formas de participação. Frente ao processo de exclusão, a democracia multicultural é desafiada e sua críticarecai sobre os pressupostos universalistas da igualdade. É a noção de cidadania universal que tem sido questionada pelos novos movimentos sociais, sobretudo, no campo das relações de gênero e movimentos étnico-raciais, que tiveram que lidar com a complexa articulação entre identidade e diferença no processo de luta por igualdade racial e de gênero (idem, 2000).
Enfrentar o debate em questãonos remete aos desafios analíticos, sobretudo, considerando a diversidade de experiências sobre a desigualdade de gênero e as diferenciações baseadas como raça, classe e geração. O gênero é o que as mulheres têm em comum? E as outras diferenças? Ao criticar a análise aditiva da identidade, Linda Nicholson (2000) diz que a idéia aditiva do sexismo mais o racismo olha as diferenças que marcam asmulheres apenas em termos negativos, distorcendo o sentido da experiência diferente de opressão do sexismo para as mulheres negras.
A partir de uma perspectiva histórica e crítica dos conceitos, Nicholson explica que no final da década de 60 e início de 70, o ‘feminismo da diferença’ procurou os padrões de dominação de gênero para enfrentar a prerrogativa ocidental da igualdade abstrata entreindivíduos. Ao buscar os padrões de desigualdade de gênero, o ‘feminismo da diferença’ teve de afirmar que as questões das mulheres são diferentes das dos homens. Desse modo, a igualdade implica o reconhecimento das diferenças. Grande parte das feministas desta fase introduziu o conceito de gênero visando questionar o determinismo biológico que predominava nas explicações das diferenças entre ossexos. Contudo, argumenta Nicholson, se por um lado, a construção social do gênero é enfatizada, por outro, trata-se de uma visão reducionista na medida em que naturaliza a oposição masculino/feminino enquanto estrutura binária fixada e biologizada do corpo. O feminismo negro e as formulações das mulheres lésbicas e bissexuais, por exemplo, questionam o conceito pouco abrangente de gênero quelimite ou exclua uma análise sobre a multiplicidade relacionada ao universo das mulheres. Diante de tal desafio, Nicholson argumenta que existem variações culturais nas formas como compreendemos o corpo e as variações sociais na distinção masculino/feminino. Através dos estudos de Thomas Laquer, ela exemplifica a mudança de concepção do corpo unissexuado (no qual a mulher seria uma forma físicaincompleta do corpo humano) para o bissexuado na literatura médica do século XVIII. E conclui que, ainda que não se possa negar que as sociedades façam distinções sexuais, é significativo que existam diferentes sentidos e graus de relevância atribuídos ao corpo, provando que não existe sentido unívoco que define a identidade da mulher pelo sexo biológico.
Em sua acepção mais complexa e diversado gênero, Nicholson defende uma abordagem não sistêmica da condição das mulheres, pondo em relevo uma perspectiva mais situacional das experiências de desigualdades. Podemos interrogar: uma análise situacional necessariamente pressupõe o enfraquecimento do patriarcado – entendido como dominação masculina sobre as mulheres? Como se estruturam relações de dominação quando as experiências são tão...
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