Homem e sociedade

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SÉRIE ANTROPOLOGIA

130 A FAVOR DA ETNOGRAFIA Mariza G.S. Peirano

Brasília 1992

A favor da etnografia Mariza G.S. Peirano

An anthropologist's work tends, no matter what its ostensible subject, to be but an expression of his research experience, or more accurately, of what his research experience has done to him. Geertz, l968:vi

Muitas vezes, a ciência social toma o caráter deduplicação ou repetição ao longo do tempo. Isto foi o que notou Michael Fischer, ao procurar explicitar para um público brasileiro a gênese da antropologia interpretativa nos Estados Unidos (Fischer, l985). Há, com freqüência, um retorno a uma era anterior em busca de textos inspiradores mas, como a história não é circular, mas espiralada, "a duplicação ou repetição nunca é exatamente isso, pois hásempre uma nova faceta ou uma nova solução" (:60). Assim, ilustrava Fischer, a trajetória intelectual de Clifford Geertz parece quase como uma cristalização típica ideal de certos processos dos quais os anos 60 surgem como se fossem uma reprise dos anos 20 -- este foi o período de amadurecimento da chamada "geração de l905" (entre os quais estavam Robert Musil, Ludwig Wittgenstein, Walter Benjamin eos surrealistas), uma geração de ensaistas que, em oposição aos grandiosos sistemas de explicação do século XIX, propunham que era possível apenas atingir insights fragmentários da realidade. Nesta perspectiva, os escritos de Geertz sobre o fazer etnográfico, tão em evidência até recentemente, ecoam preocupações do início do século mas, em outro sentido, chamam a atenção, como novidade dentro daantropologia, sobre o modo como são construídos os textos etnográficos. Eles trazem, portanto, uma nova faceta substantiva para os velhos problemas de verstehen, ao dar atenção tanto aos textos criados pelos antropólogos quanto aos processos culturais que são neles descritos. As observações de Michael Fischer nos vêm à mente com os recentes questionamentos a que a etnografia tem sido submetida:publicando em revistas de prestígio nos Estados Unidos, jovens autores posicionam-se "contra a etnografia" (um exemplo é o de Nicholas Thomas, l99l), numa postura provocadora que nos relembra a década de 30 quando, então como agora, via-se um perigo na saturação dos textos etnográficos. A solução proposta na época residia na adoção de uma abordagem comparativa como meio para atingir uma discussãoteórica mais relevante1. No Brasil, a
Outros questionamentos recentes estão, por exemplo, na proposta "beyond ethnography" de Paul Rabinow (l988), e na pergunta "What's wrong with ethnography?" de Martyn Hammersley (l990).
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questão também se coloca: aqui, a ciência política e a sociologia detectam atualmente uma ameaça na influência da abordagem antropológica no momento em que ela se tornamais disseminada (ver Reis, F. l99l). Vista como de pouco rigor científico, potencialmente ela fragiliza o compromisso teórico das ciências sociais. (Esta posição também tem ressonância no passado, e podemos nos lembrar das críticas ao empirismo da antropologia feitas por Florestan Fernandes há trinta anos atrás, na conferência que realizou na reunião da Associação Brasileira de Antropologia; cf.Fernandes, l96l). Neste exercício, em que adoto a posição a favor da etnografia, tenho dois objetivos, ambos alternadamente remotos e imediatos: primeiro, ao procurar um diálogo com o texto de Nicholas Thomas, escolho um interlocutor geográfica e socialmente distante, num discurso certamente unilateral para um trabalho escrito em português. Contudo, embora geograficamente remoto, o texto deThomas está ideológica e intelectualmente próximo, na medida em que funcionamos como "uma câmara de decantação na periferia"2, e serve como símbolo de um diálogo externo à comunidade mais restrita dos cientistas sociais brasileiros. Já o segundo objetivo diz respeito justamente ao contexto brasileiro, onde os interlocutores estão não só geográfica mas socialmente próximos, e os resultados do...
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