Holocausto

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  • Publicado : 17 de outubro de 2012
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HOLOCAUSTO
Havia sol naquele tempo e apenas um dente doía. No começo,
apenas um. Eu conseguia localizar a dor e orientava três de meus dedos,
indicador, médio, polegar, as extremidades unidas, até aquele ponto
latejante. Eu inspirava fundo. E quando expirava, alguns raios saíam das
extremidades dos dedos e atravessavam a pele dos maxilares e a carne das
gengivas para ir ao encontro do pontoexato. Depois de alguns minutos eu
suspirava, os músculos se soltavam, as pernas e os braços se distendiam e
minha cabeça afundava na grama, o rosto voltado para o sol. Agora ficou
escuro e todos os dentes doem ao mesmo tempo. Como se um enorme
animal ferido passeasse, sangrando e gemendo, dentro de minha boca. Levo
as duas mãos ao rosto, continuamente. Inspiro, expiro. Mas nada maisacontece.
Antes, antes ainda, foram os piolhos. Eu sentia alguns
movimentos estranhos entre meus cabelos. Mas naquele tempo eram tantos
pensamentos novos e incontroláveis dentro da minha cabeça que eu não
sabia mais distingui-los daqueles outros movimentos, externos, escuros. Até
o dia em que alguém tocou nos meus cabelos eu julguei que apenas dentro
havia aquelas súbitas corridas, aquelefervilhar. Ainda havia sol, então, e
esse alguém puxou para fora, entre as pontas unidas de três dedos, aquela
pequena coisa branca, mole, redonda, que ficou se contorcendo ao sol.
Desde então, alertado, passei a separar a sua ebulição daquela outra, a de
dentro. E por vezes eles desciam por meu pescoço, procurando os pêlos do
peito, dos braços, do sexo. Quando não me doíam os dentes e quando haviasol, às vezes eu os comprimia devagar entre as unhas para depois jogá-los
pela janela, sobre a rua, a grama. Alguns eram levados pelo vento. Os outros
se reproduziam ferozmente, sem que eu nada pudesse fazer para de tê-los.
Um pouco antes, não sei, ou mesmo durante ou depois, não
importa — o certo é que um dia houve também as bolhas. Apareciam
primeiro entre os dedos das mãos, pequenas,rosadas. Comichavam um
pouco e, quando eu as apertava entre as unhas, libertavam um líquido
grosso que escorria abundante entre os dedos, até pingar no chão. Daqueles
vales no meio das falanges, elas escalaram os braços e atingiram o pescoço,
onde se bifurcaram em dois caminhos: algumas subiram pelo rosto, outras
desceram pelas pernas, alcançaram os joelhos e os pés, onde se detiveram,
naimpossibilidade de furar a terra. À medida que avançavam, tornavam-se
maiores e comichavam ainda com mais intensidade. Minhas unhas crescidas
dilaceravam a frágil pele rosada que escamava, transformando-se em feridas
úmidas e lilases. A princípio o sol fazia com que secassem e cicatrizassem.
Mas depois ele se foi. E agora nada mais as detém.
É preciso falar também nos outros. E na casa. Eu estavatão
absorvido pelo que acontecia em meu próprio corpo que nada em volta me
parecia suficientemente real. A casa, os outros. Quando percebi que eles
existiam — e eram muitos, doze, treze comigo —, já meu corpo estava
completamente tomado. E temi que me expulsassem. Não tínhamos luz
elétrica, o sol tinha-se ido havia algum tempo, os dias eram curtos e
escuros, dormíamos muito e, quando acendíamosaquelas longas velas que
costumávamos roubar das igrejas, a chama não era suficiente para que
pudéssemos ver uns aos outros. E também havia muito tempo não nos
olhávamos nos olhos.
Somente há uma semana — como fazia muito frio e
precisássemos de lenha para a lareira — fomos obrigados a queimar os
móveis do andar de cima. As chamas enormes duraram algumas horas.
Creio que movido pelaesperança de que a luz e o calor pudessem amenizar a
dor e secar as feridas, aproximei-me lentamente do fogo. Estendi as mãos e,
quando olhei em volta, havia mais doze pares de mãos estendidas ao lado
das minhas. Os doze pares de mãos estavam cheios de feridas úmidas e
violáceas. Todos viram ao mesmo tempo, mas ninguém gritou. Eu gostaria
de ter conseguido olhá-los no fundo dos olhos, de ter...
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