Hobbes e o senhor das moscas

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Hobbes e O Senhor das Moscas1

Cientista político inglês e filósofo, Thomas Hobbes inaugurou, com a
publicação de sua obra Leviatã, uma discussão dentro da teoria política acerca
da constituição de um governo soberano legitimado racionalmente. Essa
tentativa de encontrar na razão os fundamentos que levam o indivíduo a se
sujeitar ao poder político instituído culminou numa doutrinaconsiderada a base
da visão moderna de Estado.
Sua principal premissa é que a origem do Estado e/ou da sociedade está
num contrato. Isso significa, primeiramente, que os homens viveriam no estado
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de natureza, sem qualquer organização; seriam movidos por um instinto de
conservação e mantença da vida e estariam fadados a seguir os ditames de
suaspaixões e desejos, determinados pela razão natural. Somando estas
circunstâncias com a finitude dos recursos, Hobbes deduziu que esse ambiente
favorecia a competição entre os homens e a luta interna pela posse dos bens, o
que, fatalmente, levava ao medo, à inveja e a disputa; em suma, estaria o
homem absorto num estado de guerra de todos contra todos. Este estado de
beligerância, nos dizeres doautor, é assim caracterizado:
(...) durante o tempo em que os homens vivem sem um poder comum capaz de os
manter a todos em respeito, eles se encontram naquela condição a que se chama
guerra. Uma guerra que é de todos os homens contra todos os homens. A guerra
não consiste apenas na batalha, ou no ato de lutar, mas naquele lapso de tempo
durante o qual a vontade de travar batalha ésuficientemente conhecida. Daí a
noção de tempo deve ser levada em conta quanto à natureza da guerra, do
mesmo modo que quanto à natureza do clima. Tal como a natureza do mau tempo
não consiste em dois ou três chuviscos, mas numa tendência para chover que
dura vários dias seguidos, também a natureza da guerra não consiste na luta real,
mas na conhecida disposição para tal, durante todo o tempo em que nãohá
garantia de não haver beligerância. Todo o tempo restante é de paz. (Hobbes,
2003, p. 98).

Nesse estado de guerra nada de útil surge, já que cada um somente se
concentra na autodefesa e conquista, tornando o trabalho produtivo uma
quimera impossível. Não existe tranqüilidade para gerar riquezas, inexiste
motivação para construir ou explorar, não há espaço para as artes, “Não hásociedade. E o que é pior do que tudo, há um constante temor e perigo de morte
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Filme de Harry Hook, intitulado no original Lord of the Flies. A idéia de relacionar o pensamento
político de Thomas Hobbes com a película deve-se à leitura da instigante obra Carta aberta de
Woody Allen para Platão de Juan Antonio Rivera.

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violenta. A vida do homem é solitária, pobre, sórdida, embrutecida ecurta”
(Hobbes, 2003, p. 98).
Não se pense, todavia, que esse comportamento humano derive da
irracionalidade. Pelo contrário, nada é para Hobbes mais racional do que
empregar toda a força para se auto-preservar, fazendo tudo aquilo que sua
razão e julgamento lhe indiquem como os meios necessários. Enquanto não há
a instituição do Estado suficientemente forte para conter os ímpetos naturais eimpor a ordem, auxiliando os indivíduos na preservação de suas vidas contra os
inimigos, o homem se governa por sua própria razão e, portanto, está livre —
não encontra impedimentos externos — para espoliar, matar e tudo mais que
convier para garantir sua sobrevivência. O homem natural de Hobbes não é,
pois, um selvagem, e sim um ser racional — o mesmo que sairá do estado de

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natureza e comporá a sociedade sem que tenha passado por qualquer mutação
interna (Welford, 1998, p.54).
Para pôr termo a esse estado de hostilidade entre os homens havia a
necessidade de superar esse estado natural em busca de um poder comum,
idôneo a ordenar os homens e a assegurar a paz e a segurança, valores tão
almejados pelos indivíduos. Esse poder...
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