Historia

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  • Publicado : 12 de agosto de 2012
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SALVEM O FOLIÃO

Se algum dia alguém resolvesse escrever uma versão brasileira do Dom Quixote, não tenho dúvidas de que o cavaleiro da triste figura deveria ser representado pelo folião do Bloco do Eu Sozinho. É isso mesmo: o Quixote brasileiro é aquele sujeito que vestiu a fantasia e saiu às ruas no carnaval rigorosamente solitário ou, no máximo, na companhia de desajeitados escudeiros catadosà sorrelfa em alguma esquina.

Esse folião está em vias de se extinguir, engolido pelas multidões coreografadas, submerso em materiais de propaganda de empresas que patrocinam a folia e atropelado por caminhões de som com amplificadores potentes. Não bastasse isso, se o solitário folião consegue um espaço para erguer o seu estandarte e sair cantando a Jardineira, é capaz de ser abordado por umfiscal da prefeitura em busca do alvará que lhe conceda a licença para cair na gandaia.

Sempre fui defensor de uma idéia que não tem lá muitos adeptos: os maiores foliões são os tristes. O tríduo não foi feito para os festeiros escancarados, os baianos de ocasião, as polainas desvairadas do sonho bom, os colecionadores de abadas. O legítimo folião não programa o carnaval; sabe apenas que vaipara a rua imolar-se nos blocos e cordões e morrer até a quarta-feira de cinzas, quando ressuscitará como burocrata, marido, esposa, professor ou escriturário, para o longo e medíocre intervalo cotidiano entre um carnaval e outro.

A idéia de se transformar o carnaval de rua em uma eterna micareta no balneário dos grandes eventos – e os conseqüentes dilemas que envolvem as relações entre opoder público e as agremiações carnavalescas – envolve o risco de matar o folião espontâneo, comandante de uma armada de piratas, colombinas, índios, faraós e árabes que vão se juntando sem trajeto definido, horário de partida ou de chegada.

Durante a Primeira República, o governo resolveu alterar a data do Carnaval de 1912, em virtude do falecimento do barão do Rio Branco. Quando correu a notíciade que o velho tinha batido a caçoleta, foi determinado que a festa de Momo se realizasse apenas no sábado de Aleluia. Resultado: os anônimos foliões foram saindo às ruas de mansinho e, quando se percebeu, o fuzuê estava formado antes mesmo que o cadáver do barão esfriasse na sepultura. O povão batia bumbos e cantava uma quadrinha que se espalhou pela cidade: “Com a morte do Barão/ Teremos doiscarnaval/Ai que bom, ai que gostoso/ Se morresse o marechal”. O marechal em questão era simplesmente o presidente Hermes da Fonseca. Não conheço momento mais emblemático na história do carnaval carioca.

O verdadeiro folião – espremido entre a cruz (a multidão organizada) e a espada (o alvará que não possui) - sabe que a experiência carnavalesca é uma pequena morte. Durante os dias de Momo, amáscara prevalece e todas as inversões sociais são urgentes e necessárias. O esquecimento é a essência da folia. A espontaneidade é o seu mote. É direito de todo carnavalesco zombar pacificamente dos barões e marechais da vez – e isso deve lhe ser garantido pelos próprios barões e marechais.
Que cada um dos consagrados na Ordem de Momo tenha, pacificamente, a liberdade de se esbaldar. É possível?Vivemos tempos de uniformização dos costumes, fruto do tal de mundo globalizado. Em cada canto desse mundaréu, ligado por redes transnacionais de telecomunicações, as pessoas assistem aos mesmos filmes, vestem as mesmas roupas, ouvem as mesmas músicas, falam o mesmo idioma, cultuam os mesmos ídolos e se comunicam em, no máximo, cento e quarenta toques virtuais. Nessa espécie de culto profano, emque a vida cotidiana é regida pelos rituais em louvor ao mercado que não é o de Madureira, o bicho pega e as idéias morrem, como outro dia morreu de morte matada o acento em idéia, sem choro nem vela e sem a dignidade de um samba do Noel.

Eu, que trabalho com adolescentes e adultos jovens, percebemos que as crenças e projeções de futuro da rapaziada foram substituídas pelo pânico cotidiano -...
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