Historia e literatura

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DEBATE Literatura e História*
Roger Chartier

A

relação entre literatura e história pode ser entendida de duas maneiras. A primeira enfatiza o requisito de uma aproximação plenamente histórica dos textos. Para semelhante perspectiva é necessário compreender que nossa relação contemporânea com as obras e os gêneros não pode ser considerada nem como invariante nem como universal. Devemosromper com a atitude espontânea que supõe que todos os textos, todas as obras, todos os gêneros, foram compostos, publicados, lidos e recebidos segundo os critérios que caracterizam nossa própria relação com o escrito. Trata-se, portanto, de identificar histórica e morfologicamente as diferentes modalidades da inscrição e da transmissão dos discursos e, assim, de reconhecer a pluralidade das operaçõese dos atores implicados tanto na produção e publicação de qualquer texto, como nos efeitos produzidos pelas formas materiais dos discursos sobre a construção de seu sentido. Trata-se também de considerar o sentido dos textos como o resultado de uma negociação ou transações entre a invenção literária e os discursos ou práticas do mundo social que buscam, ao mesmo tempo, os materiais e matrizes dacriação estética e as condições de sua possível compreensão.1 Mas há uma segunda maneira talvez mais inesperada de considerar a relação entre literatura e história. Procede ao contrário, isto é, descobre em alguns textos literários uma representação aguda e original dos próprios mecanismos que regem a produção e transmissão do mistério estético. Semelhantes textos que fazem da escritura, do livroe da leitura o objeto mesmo da ficção, obrigam os historiadores a pensar de outra maneira as categorias mais fundamentais que caracterizam a “instituição literária”.

*

Conferência proferida por Roger Chartier, em 5 de novembro de 1999, no Salão Nobre do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, que abriu o debate que se segue com João Adolfo Hansen.

Topoi, Rio de Janeiro, nº 1, pp.197-216.

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Tanto na Antigüidade como na ordem moderna do discurso literário, três noções constituem tal instituição. Em primeiro lugar, a identificação do texto com um escrito fixado, estabilizado, manipulável graças à sua permanência. Por conseguinte, a idéia de que a obra é produzida para um leitor, e um leitor que lê em silêncio, para si mesmo e solitariamente, mesmo quando seencontrar em um espaço público. Por último, a caracterização da leitura como a atribuição do texto a um autor e como uma decifração do sentido. Mas é preciso ter distanciamento em relação a esses três supostos para compreender quais foram as razões da produção, as modalidades das realizações e as formas das apropriações das obras do passado. E também é preciso compreender em sua própria historicidade einstabilidade. É ali onde se fixam as categorias fundamentais que organizam a ordem do discurso literário moderno, tal como Foucault o caracterizou em dois textos célebres, Qu’est-ce qu’un auteur? e L’ordre du discours:2 o conceito de obra, com seus critérios de unidade, coerência e persistência; a categoria de autor, que faz com que a obra seja atribuída a um nome próprio; e, por último, ocomentário, identificado com o trabalho de leitura e interpretação que traz à luz a significação já presente de um texto. Retomando essas três categorias, que definem o objeto mesmo das três disciplinas fundamentais da “instituição literária” (a filologia, a história literária, a hermenêutica), gostaria de mostrar como algumas obras literárias nos conduzem a construí-las não como universais mas em suadescontinuidade e mobilidade. Um encontro inesperado entre Borges e Foucault permite reavaliar em primeiro lugar o próprio conceito de “autor”. Em uma conferência famosa, “Que é um autor?”, proferida diante da Société Française de Philosophie em 1969, Foucault distinguia dois problemas, freqüentemente confundidos pelos historiadores: por um lado, a análise sócio-histórica do autor como indivíduo...
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