Ha no firmamento

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O poema "Há no firmamento um frio lunar", é um poema ortónimo datado de 11/3/1917.

É constituído por 4 quadras, muito curtas e sintéticas - no que é uma das marcas inconfundíveis da obra ortónima de Pessoa. Há no firmamento
Um frio lunar.
Um vento nevoento
Vem de ver o mar.

Quase maresia
A hora interroga,
E uma angústia fria
Indistinta voga.

Não sei o que faça,
Não sei o quepenso,
O frio não passa
E o tédio é imenso.

Não tenho sentido,
Alma ou intenção...
Estou no meu olvido...
Dorme, coração...

Os elementos exteriores são: o firmamento (o céu), o frio lunar e um vento (quase nevoeiro, porque vem do mar, misturado com a maresia). O exterior contrapõe-se ao interior, pelo que há que analisar estes elementos exteriores face aos sentimentos que eles provocam nosujeito poético. O firmamento pode simbolizar simultaneamente a distância e o inalcansável. O frio lunar pode simbolizar a paragem do tempo, a impossibilidade de se viver a vida e de, ao mesmo tempo, reflectirmos sobre ela. O vento-nevoeiro, é afinal o obstáculo entre a vida presente (e triste) e uma outra vida distante (e feliz). Tudo isto é subjectivo, mas é claro que há uma identificação entre aangústia do poeta que escreve e o mundo que ele vê, provavelmente olhando pela janela à noite. No meio do poema há um momento de transição que é preciso destacar: "E uma angústia fria / Indistinta voga". Note-se que a angústia é "fria", como a maresia que vem do mar e o frio lunar que permeia o firmamento. 

O estado de espírito do poeta ao escrever este poema pode caracterizar-se comoangustiado, perdido, sem esperança nem sentido. Afinal o que ele sente é o que ele vê, como se as suas sensações exteriores fossem exactamente iguais às suas sensações interiores - embora na realidade pareça ser o contrário; afinal outros olhos poderiam sentir outras coisas, ao ver exactamente as mesmas imagens exteriores. 
 
Há aqui várias marcas do heterónimo, nomeadamente: a identidade perdida, aconfusão entre sonho e realidade, a intelectualização da emoção, inquietação metafísica, dor de viver e auto-análise. Uma outra característica bem marcante é a própria forma do poema: curto, sintético, com pouco uso de figuras de estilo ou embelezamentos estéticos literários.  O poema "Há no firmamento" é um poema ortónimo de Fernando Pessoa (ou seja, escrito em seu próprio nome) e datado de 11 deMarço de 1917. 
 Esta poema é curiosíssimo por uma razão singela: no mês seguinte - Abril de 1917 - é o mês em que Almada Negreiros (o famoso pintor) dá a sua conferência "Ultimatum futurista às gerações portuguesas do século XX". A maoria dos estudiosos da literatura considera esta conferência como sendo o ponto de viragem, a partir do qual o modernismo "entra" realmente na realidade intelectualdo nosso país. 
 Ora, a um mês da conferência aqui temos um poema de Pessoa que nada tem de moderno, mas que simultaneamente nada teria de comum com outros poemas da sua época. A poesia ortónima de Pessoa caracteriza-se por uma simplicidade desarmante, que não recorre ao uso de embelezamentos excessivos e que é por isso mesmo considerada depurada e racional. Mas essa mesma simplicidade serve paramarcar a diferença com o estilo dominante nesse tempo - o simbolismo, que exagera no uso das metáforas e das comparações (com o exemplo magnífico de António Nobre). Há no firmamento
Um frio lunar.
Um vento nevoento
Vem de ver o mar.
 
A leitura apressada do poema - que muitas das vezes é a melhor leitura para uma primeira análise - lembra-nos de imediato as insónias de Fernando Pessoa.Sabemos pelos seus contemporâneos (sobretudo os familiares), que ele ficava muitas noites a escrever, porventura porque a noite lhe dava o palco ideal para analisar os seus pensamentos sem interferências do quotidiano. Ora, este poema é, quanto a nós, um claro poema de insónia, escrito claramente numa noite em que seria impossível escapar a esses pensamentos solitários. 
 
Podemos imaginar Pessoa a...
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