Goldman

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ÍAULA ERNESTO VEIGA DE OLIVEIRA NDICE

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Saba Mahmood

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Teoria feminista, agência e sujeito liberatório

ALTERIDADE E EXPERIÊNCIA: ANTROPOLOGIA E TEORIA ETNOGRÁFICA

Marcio Goldman

Partindo da noção de “experiência”, tal qual proposta por Godfrey Lienhardt no início dos anos 60, este artigo pretende discutir a natureza da perspectiva antropológica a partir da relação entreos saberes que os antropólogos manuseiam e aqueles das pessoas com as quais trabalham. Trata-se, fundamentalmente, de demonstrar que o ponto central do empreendimento antropológico é a construção de “teorias etnográficas”, construções que não se confundem nem com as “teorias nativas”, nem com possíveis “teorias científicas”. PALAVRAS-CHAVE: crença, experiência, história da antropologia, religião,teoria antropológica, teoria etnográfica .

Eu gostaria de iniciar esta aula Ernesto Veiga de Oliveira (2005) agradecendo

àqueles que gentilmente me convidaram para proferi-la — António Medeiros, Antónia Lima e o Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) como um todo —, bem como ao Instituto de Ciências Sociais (ICS), da Universidade de Lisboa, por ter possibilitadominha estadia em Lisboa com a concessão de uma Bolsa Luso-Afro-Brasileira.1 Eu gostaria, também, de dizer que proferir esta aula é, para mim, motivo de grande honra. Mas também motivo de alguma ansiedade e preocupação, uma vez que, de acordo com as regras, ela deve ser, ao mesmo tempo, uma aula inaugural para os novos alunos do curso de antropologia e uma espécie de conferência para os membros dodepartamento — e isso em apenas 50 minutos! Decidi, então, apelar para um recurso ao qual todo antropólogo tende a recorrer em situações dessa natureza: discutir aquela que é, simultaneamente, a mais básica de todas as questões com que trabalhamos e uma das mais difíceis, com a qual começamos nossos cursos introdutórios e, ao mesmo tempo, que ficamos tentando solucionar, quase sempre sem sucesso, aolongo de nossas vidas. Ou seja, discutir o que é, afinal de contas, a antropologia social ou cultural. Ou, como perguntou, em algum lugar, o antropólogo inglês Edmund Leach, “o que é, em nome dos céus, que estamos tentando descobrir?” (Kuper 1978 [1973]: 219). Trata-se, pois, da própria definição do que é antropologia. Como esta é, um tanto paradoxalmente, uma das questões mais embaraçosas dadisciplina,

O autor é professor adjunto do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro; pesquisador do CNPq e do Núcleo de Antropologia da Política (NuAP, Pronex); bolsista da FAPERJ; autor de Razão e Diferença. Afetividade, Racionalidade e Relativismo no Pensamento de Lévy-Bruhl (1994), Alguma Antropologia (1999), e Como Funciona aDemocracia. Uma Teoria Etnográfica da Política (no prelo), além de organizador, em colaboração com Moacir Palmeira, de Antropologia, Voto e Representação Política (1996).
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Etnográfica, Vol. X (1), 2006, pp. 161-173

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tende-se, às vezes, a afastá-la de antemão, sob o argumento de que, afinal de contas, não vale muito a pena ficar discutindo palavras. Por outro lado, comolembra o historiador francês Paul Veyne (1978: 7), “a experiência mostra que a indiferença pela discussão de termos é, frequentemente, acompanhada por uma confusão de idéias sobre a própria coisa”, ou melhor, uma recusa em esclarecer nossas próprias posições. Assim, e retomando uma distinção de Lévi-Strauss (1973: 341), pode-se dizer que há sempre duas maneiras de tentar uma definição daantropologia: por “compreensão” ou por “extensão”. Quer dizer, seja tentando uma definição conceitual geral, seja indagando o que se faz concretamente, afinal, sob o nome de antropologia. Devo advertir que eu me conto entre os que experimentam alguma dúvida sobre a possibilidade de uma caracterização consensual do que seja nossa disciplina — o que também significa, claro, que tudo o que vou aqui dizer...
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