Globalizaçao multiculturismo

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JOÃO MARIA ANDRÉ

IDENTIDADE(S), MULTICULTURALISMO E GLOBALIZAÇÃO

Comunicação apresentada no painel MULTICULTURALISMO, GLOBALIZAÇÃO, ACTUALIDADE, que integrou o XX Encontro de Filosofia, A Filosofia na Era da Globalização, que decorreu no Auditório da Reitoria da Universidade de Coimbra, nos dias 23 e 24 de Fevereiro de 2006. (N.O.)

Coimbra 2006

Identidade(s), multiculturalismo eglobalização

de João Maria André

0. Começo este conjunto de reflexões sobre “Identidade(s) e multiculturalismo”1 colocando-me sob a inspiração de um dos autores que nos tem oferecido um dos melhores exemplos de mestiçagem literária na ficção escrita em língua portuguesa. Faço-o não apenas pela beleza do texto escolhido, mas, sobretudo, pelo seu significado filosófico e antropológico. Refiro-meao escritor moçambicano Mia Couto e, neste caso concreto, ao seu primeiro livro Vozes Anoitecidas. Um dos contos, intitulado “Afinal Carlota Gentina não chegou de voar?”, que nos fala das suspeitas de um homem que não sabia se a sua companheira era mulher, ave ou as duas coisas, começa com estas palavras: “Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque dentro de mimnão sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto a minha história me misturo, mulato não de raças, mas de existências.”2 Assim escreve Mia Couto, descrevendo, com estas palavras, a situação do homem africano na percepção que tem da sua identidade: “mulato, não de raças, mas de existências”.Mas, “mulatos, não de raças mas de existências” é também o que todos nós somos na aventura do ser e do tempo em que vivemos.

1. O mundo que hoje percorremos e habitamos proporciona-nos uma vivência contraditória da familiaridade e do estranhamento que temos ou não temos com as coisas, as pessoas, as culturas e o seu acontecimento plural no mundo e na história. Ao mesmo tempo que as distâncias seanulam pelas vias electrónicas da comunicação, tornando vizinhos os que tão longe habitam nesta aldeia global, apagam-se as referências doadoras de sentido, que
1

Este trabalho, corresponde, nos seus traços essenciais, à comunicação apresentada no

Encontro de Valadares, sobre “Deus no século XXI e o futuro do Cristianismo”, realizado em Setembro de 2005. Ao mesmo tempo, tomando como ponto departida o pequeno contributo que publicámos em Desafios à Igreja de Bento XVI, Cruz Quebrada, Casa das Letras, 2005, pp. 77-90, e constituindo o seu natural desenvolvimento, retoma literalmente, por isso, em determinados momentos, alguns parágrafos daquele texto. Da versão original a publicar no próximo número da Revista Igreja e Missão excluímos apenas as secções que mais se relacionavam com asimplicações do multiculturalismo sobre a Igreja e a vivência da Fé.
2

Mia COUTO, Vozes anoitecidas, Lisboa, Caminho, 19873ª, p.85. 2

permitiam outrora desenhar os mapas da nossa orientação e reconhecer no céu infinito estrelas privilegiadas como guias da nossa caminhada. Assim, se a aldeia facilita o (re) conhecimento, a multiplicação ao infinito das estradas, das ruas e das ágoraspotencia o desconhecimento e se a globalização parece homogeneizar, tal homogeneização impede a percepção diferenciada da singularidade inalienável do outro e dos outros, sem a qual é impossível o diálogo, que pressupõe sempre a relação entre dois seres em comunicação mas irredutíveis na sua alteridade. Significa isto que a metáfora de Babel, com que se quis dizer, por um lado, a ambição dos homens, mas,por outro, o seu desencontro, adquire hoje uma dialecticidade interna que a complexifica e nos faz pensar pela densidade da sua actual reescrita: pode dizerse que, finalmente, a “torre” parece ter sido construída, não numa direcção vertical e num sentido transcendente, para proporcionar o acesso dos homens a Deus, mas sim numa direcção horizontal e num sentido imanente, para universalizar e...
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