Girias

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A GÍRIA: DO REGISTRO COLOQUIAL AO REGISTRO FORMAL
 
1. Introdução
O léxico é o componente da língua que mais facilmente retrata as mudanças e variações lingüísticas, visto que, por ter como função nomear e designar fatos, processos, objetos, pessoas, etc., reflete necessariamente as transformações sociais, daí ser umaclasse de palavras aberta (está sempre incorporando novos itens lexicais). Sendo uma classe aberta, o léxico comporta unidades de todos os registros lingüísticos, inclusive a gíria, objeto de análise deste artigo.
Em trabalhos anteriores, analisou-se a gíria sob o ponto de vista de sua formação (Souto Maior e Barros, 1999a) e do preconceito lingüístico e social (idem, 1999b) e viu-se que,apesar de recorrente em diversos grupos sociais e nos meios de comunicação, há preconceito contra essa variedade lingüística, que não é a padrão e a cujo significado o acesso pode não ser fácil.
Para o presente estudo, cujo objetivo é verificar a presença de gíria na imprensa escrita, descaracterizando-se como gíria de grupo, esse tipo de vocabulário é abordado numa perspectivagramatical, lingüística e didática, para, em seguida, poder-se comparar essa abordagem com as recomendações a respeito de seu uso, dadas pelos manuais de redação de cada um dos jornais analisados. Os dados para análise advêm dos jornais de circulação nacional O Globo e a Folha de São Paulo, em suas edições eletrônicas, de janeiro a junho de 2000. Foram considerados seus editoriais e as matérias relativas apolítica e economia, que são escritas em um registro lingüístico formal. Procurou-se saber se as gírias estão presentes nesses textos e, em caso afirmativo, se são escritas com sinais gráficos (aspas, itálico, negrito... ), demonstrando pertencer a outro registro ou se estão incorporadas ao registro formal, sem nenhum destaque gráfico.
O embasamento teórico dessa análise vem,principalmente, de Preti (1984, 1996, 1997, 1998, 1999); de Bagno (1999), considerando o preconceito lingüístico; e de Tarallo (1986), referindo-se à variação lingüística e sociedade. Além dessas fontes, os dois jornais selecionados possuem manuais de redação e estilo, nos quais constam recomendações a serem seguidas por seus jornalistas, dentre elas o não uso de gíria nos textos.
 
2. A gíria e seusestudos
 
A gíria, considerada como um conjunto de unidades lingüísticas (itens lexicais simples ou complexos, frases, interjeições...) que caracterizam um determinado grupo social, nem sempre mereceu um estudo específico, visto que faz parte, predominantemente, da modalidade oral da língua e num registro informal. Como, por tradição, valorizou-se sempre o estudo da língua escrita padrão,não havia lugar para esse tipo de vocabulário. Isso é o que se pode ver, consultando gramáticas da língua portuguesa de épocas diversas.
 
2.1. A gíria na perspectiva gramatical
 
De forma breve, faz-se uma consulta a algumas gramáticas tradicionais de português, para observar-se o tratamento que é dado à gíria, vocábulo com empregos e valores afetivos diversos, quecontribui para o enriquecimento da língua portuguesa.
Foram consultadas oito gramáticas, das décadas de 70, 80 e 90 (ver bibliografia), das quais apenas três mencionam a gíria, dois com um caráter prescritivo e um, descritivo: 1) Cegalla, em sua Novíssima Gramática da Língua Portuguesa (1985:535), se refere a sete modalidades da língua portuguesa, dentre elas, a popular, em que a gíria está incluída.Na definição de língua popular, esse autor afirma: “é a fala espontânea e fluente do povo. Mostra-se quase sempre rebelde à disciplina gramatical e está eivada de plebeísmos, isto é, de palavras vulgares e expressões da gíria. É tanto mais incorreta quanto mais incultas as camadas sociais que a falam”; 2) Rocha Lima, em sua Gramática Normativa da Língua Portuguesa (1972:05), ao falar da...
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