Geografia - isso serve em primeiro lugar para fazer a guerra

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 14 (3403 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 17 de março de 2013
Ler documento completo
Amostra do texto
Uma Disciplina Simplória E Enfadonha ?

Todo mundo acredita que a geografia não passa de uma disciplina escolar e universitária, cuja função seria a de fornecer elementos de uma descrição do mundo, numa certa concepção “desinteressada” da cultura dita geral ... Pois, qual pode ser de fato a utilidade dessas sobras heteróclitas das lições que foi necessário aprender no colégio? As regiões dabacia parisiense, os maciços dos Pré-Alpes do Norte, a altitude do Monte Branco, a densidade de população da Bélgica e dos Países Baixos, os deltas da Ásia das Monções, o clima bretão, longitude-latitude e fusos horários, os nomes das principais bacias carboníferas da URSS e os dos grandes lagos americanos, a têxtil do Norte (Lille-Roubaix-Tourcoing), etc. E os avós a lembrar que outrora era precisosaber “seus” departamentos, com suas circunscrições eleitorais e subcircunscrições ...tudo isso serve para quê?

Uma disciplina maçante, mas antes de tudo simplória, pois, como qualquer um sabe, “em geografia nada há para entender, mas é preciso ter memória ...” De qualquer forma, após alguns anos, os alunos não querem mais ouvir falar dessas aulas que enumeram, para cada região ou para cadapaís, o relevo - clima - vegetação - população agricultura - cidades - indústrias.
Nos colégios se tem de tal forma “as medidas cheias” da geografia que, sucessivamente, dois Ministros da Educação (e entre eles, um geógrafo!) chegaram a propor a liquidação desta velha disciplina “livresca, hoje ultrapassada” (como se tratasse de uma espécie de latim). Outrora, talvez, ela tenha servido para qualquercoisa, mas hoje a televisão, as revistas, os jornais não apresentam melhor todas as regiões na onda da atualidade, e o cinema não mostra bem mais as paisagens?

Na Universidade onde contudo se ignora as “dificuldades pedagógicas” dos professores de história e de geografia do secundário, os mestres mais avançados constatam que a geografia conhece “um certo mal estar”; um dos reitores dacorporação declara, não sem solenidade, que ela “entrou na era dos quebras1”. Quanto aos jovens mandarins que se lançam na epistemologia, eles chegam a ousar questionar se a geografia é mesmo uma ciência, se este acúmulo de elementos do conhecimento “emprestados” da geologia, da economia política ou da pedologia, se tudo isso pode pretender constituir uma verdadeira ciência, autônoma, de corpo inteiro ...Mas que diabo, dirão todos aqueles que não são geógrafos, não há problemas mais urgentes a serem discutidos além dos mal-estares da geografia ou, em termos mais expeditos, “a geografia, não temos nada a ver com ela...” pois isso não serve para nada.

A despeito das aparências cuidadosamente mantidas, de que os problemas da geografia só dizem respeito aos geógrafos, eles interessam, em últimaanálise, a todos os cidadãos. Pois, esse discurso pedagógico que é a geografia dos professores, que parece tanto mais maçante quanto mais as mass media desvendam seu espetáculo do mundo, dissimula, aos olhos de todos, o temível instrumento de poderio que é a geografia para aqueles que detêm o poder.

Pois, a geografia serve, em princípio, para fazer a guerra. Para toda ciência, para todo saber deveser colocada a questão das premissas epistemológicas; o processo científico está ligado à uma história e deve ser encarado, de um lado, nas suas relações com as ideologias, de outro, como prática ou como poder. Colocar como ponto de partida que a geografia serve, primeiro, para fazer a guerra não implica afirmar que ela só serve para conduzir operações militares; ela serve também para organizarterritórios, são somente como previsão das batalhas que é preciso mover contra este ou aquele adversário, mas também para melhor controlar os homens sobre os quais o aparelho de Estado exerce sua autoridade. A geografia é, de início, um saber estratégico estreitamente ligado a um conjunto de práticas políticas e militares e são tais práticas que exigem o conjunto articulado de informações...
tracking img