Gabriela cravo e canela

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  • Publicado : 24 de abril de 2013
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O projeto de “contar a vida do povo” que emerge das narrativas de Jorge Amado tem como pontos de partida a desigualdade socioeconômica e a diferença cultural. Paralelo a isso, os romances amadianos buscam representar e humanizar os seres ditos subalternizados, como por exemplo, a figura da mulher que será objeto do nosso estudo na obra Gabriela, cravo e canela.

Gabriela, cravo e canela,escrito no ano de 1958, é o décimo primeiro romance de Jorge Amado. É considerado pela crítica como o “divisor de águas”. Ainda impregnado da temática político-coronelista traz uma escrita mais independente, voltada à valorização da cultura popular e à liberdade individual. “Gabriela” é a representação do povo em seu desejo ardente de liberdade e de vida. O autor baiano já canonizado pelo público e aomesmo tempo excluído das altas rodas literárias, recebe o merecido reconhecimento e chega a Academia Brasileira de Letras, em 1961, “pelas mãos” de uma senhora chamada “Dona Gabriela”, conforme coloca o poeta Manuel Bandeira em ocasião da posse para a academia.

Gabriela, cravo e canela, inaugura a série de perfis femininos, uma das fortes vertentes da ficção amadiana, que admite várias linhas deabordagem, dentre elas a comportamentalista, sociológica, psicanalítica. As figuras femininas, nessa obra, são construídas em detrimento dos valores e aspectos culturais, a partir das relações que se estabelecem entre essas personagens e o sistema patriarcal, o qual elas iam de encontro, conscientes ou inconscientes em busca de sua construção identitária. Conforme colocou Fernando Cristóvão sobrea temática feminina na obra amadiana: “desde Gabriela, a mulher sobe ao primeiro plano e aí se mantém, em vários romances” (apud PATRÍCIO, 1999, p.11).

Segundo os estudos de Maria de Lourdes Netto Simões (1999), as mulheres do romance Gabriela, cravo e canela podem ser analisadas em cinco categorias: “as mulheres de família” – esposas e filhas dos coronéis; “as solteironas” – religiosasfervorosas, já passadas da idade de contrair matrimônio; “as empregadas domésticas” – em geral feias, que servem aos patrões de diversas maneiras; “as prostitutas” – comandadas por uma cafetina, são de domínio público e, finalmente, “as raparigas” – moças pobres e bonitas, que recebem casa montada e mordomias de homens casados e endinheirados.
A figura de esposa é legitimada no modelo atribuídoconforme as convenções patriarcais da época - é a mulher em situação subalterna, confinada aos encargos domésticos, à educação dos filhos e à prática religiosa. Gerar filhos era considerado outro “privilégio” da mulher “de família”. Essa prática aparece marcada nas palavras do Coronel Ramiro Bastos: “Mulher é para viver dentro de casa, cuidando dos filhos e do lar”. (AMADO, 2000, p.66). Mais adiante,essa ideia é reforçada pelo Coronel Altino Brandão, em diálogo com Mundinho Falcão: “Mulher tem muita serventia, o senhor nem imagina. Ajuda na política. Dá filho pra gente, impõe respeito. Pro resto tem as raparigas...” (AMADO, 2000, p. 173).

Essas mulheres, “exemplares” de esposa, mães de família expostas em uma vitrine manipulada pelas convenções sociais da época; viviam uma vida em “preto ebranco”, ou seja, sem as alegrias da liberdade em seu legítimo significado. Ilana Strozembergue (1983, p.74) aponta que “só há dois modos possíveis de fugir ao destino imposto às mulheres de família: o primeiro, que não rompe a ordem social, consiste na recusa do casamento. O segundo consta-se de rebelar-se contra os preceitos sociais através do adultério”.

No íntimo dessa confusão ideológica esentimental, temos D. Sinhazinha Guedes Mendonça, esposa do Coronel Jesuíno Mendonça, exemplo de “mulher transgressora”, que não satisfeita em simplesmente cumprir o seu papel de “boa esposa”, sentia a necessidade de sentir-se amada, e ultrapassa os limites da moral, encontrando o amor nos braços do Dr. Osmundo Pimentel”. Ocorre com D. Sinhazinha uma conflagração interior, em que a sua posição de...
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