Friedrich Nietzsche Humano Demasiado Humano

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Publicado em 1878, Humano, demasiado humano marcou o
afastamento de Nietzsche em relação ao romantismo de Wagner e
ao pessimismo de Schopenhauer. Influenciado pelos moralistas
franceses, Nietzsche adotou e expandiu a forma do aforismo, que
neste livro aborda temas como metafísica, moral, religião, arte,
literatura, amor, política e relações sociais.

PRÓLOGO1

1. Já me disseram com freqüência,e sempre com enorme surpresa, que
uma coisa une e distingue todos os meus livros, do Nascimento da tragédia
ao recém-publicado Prelúdio a uma loso a do futuro: todos eles contêm,
assim a rmaram, laços e redes para pássaros incautos, e quase um
incitamento, constante e nem sempre notado, à inversão das valorações
habituais e dos hábitos valorizados. Como? Tudosomente — humano,
demasiado humano? Com este suspiro dizem que um leitor emerge de meus
livros, não sem alguma reticência e até descon ança frente à moral, e mesmo
um tanto disposto e encorajado a fazer-se defensor das piores coisas: e se elas
forem apenas as mais bem caluniadas? Já chamaram meus livros de uma
escola da suspeita, mais ainda do desprezo, felizmente também da coragem,
atémesmo da temeridade. De fato, eu mesmo não acredito que alguém,
alguma vez, tenha olhado para o mundo com mais profunda suspeita, e não
apenas como eventual advogado do Diabo, mas também, falando
teologicamente, como inimigo e acusador de Deus; e quem adivinha ao
menos em parte as conseqüências de toda profunda suspeita, os calafrios e
angústias doisolamento, a que toda incondicional diferença do olhar
condena quem dela sofre, compreenderá também com que freqüência, para
me recuperar de mim, como para esquecer-me temporariamente, procurei
abrigo em algum lugar — em alguma adoração, alguma inimizade,
leviandade, cienti cidade ou estupidez; e também por que, onde não
encontrei o que precisava, tive que obtê-lo à forçade artifício, de falsi cá-lo e
criá-lo poeticamente para mim (— que outra coisa zeram sempre os poetas?
para que serve toda a arte que há no mundo?). Mas o que sempre necessitei
mais urgentemente, para minha cura e restauração própria, foi a crença de
não ser de tal modo solitário, de não ver assim solitariamente — uma mágica
intuição de semelhança e a nidade de olhar edesejo, um repousar na
con ança da amizade, uma cegueira a dois sem interrogação nem suspeita,
uma fruição de primeiros planos, de superfícies, do que é próximo e está
perto, de tudo o que tem cor, pele e aparência. Talvez me censurem muita
"arte" nesse ponto, muita sutil falsificação de moeda: que eu, por exemplo, de
maneira consciente-caprichosa fechei osolhos à cega vontade de moral de
Schopenhauer, num tempo em que já era clarividente o bastante acerca da
moral; e também que me enganei quanto ao incurável romantismo de

Richard Wagner, como se ele fosse um início e não um m; também quanto
aos gregos, também com os alemães e seu futuro — e talvez se zesse toda
uma lista desses tambéns... Supondo, porém, que tudo issofosse verdadeiro
e a mim censurado com razão, que sabem vocês disso, que podem vocês
saber disso, da astúcia de autoconservação, da racionalidade e superior
proteção que existe em tal engano de si — e da falsidade que ainda me é
necessária para que continue a me permitir o luxo de minha veracidade?...
Basta, eu ainda vivo; e a vida não é excogitação damoral: ela quer ilusão, vive
da ilusão... porém, vejam só, já não começo de novo a fazer o que sempre z,
como velho imoralista e apanhador de pássaros — falando imoralmente,
amoralmente, "além do bem e do mal"?
2. — Foi assim que há tempos, quando necessitei, inventei para mim os
"espíritos livres", aos quais é dedicado este livro melancólico-brioso que tem
o título de Humano, demasiado...
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