Finitude humana e ensino religioso

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  • Publicado : 1 de abril de 2012
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FINITUDE HUMANA E ENSINO RELIGIOSO

INTRODUÇÃO

A finitude humana (ou morte) é um tema bastante complexo, negado pela cultura e pela sociedade de consumo, pouco investigado e pouco descrito em textos acadêmicos. Acreditamos que esse nosso artigo poderá contribuir para o aprofundamento da questão, relacionando-o com as diversas possibilidades metodológicas de abordá-lo nas aulas deEnsino Religioso. Além disso, vamos abordá-lo levando em conta as quatro matrizes religiosas que estão presentes em nossa formação sócio-cultural religiosa, que são a africana, a indígena, a oriental e a semita.


O assunto “morte” está presente nas discussões sobre a assistência e promoção da saúde, mas é um tema proibido no interior das famílias e nas rodas de amigos. Ela é vista comofracasso, incapacidade ou incompetência dos médicos e profissionais de saúde, mas na verdade é a consciência da própria morte que nos humaniza. Por isso, o Ensino Religioso não poderia deixar de abordar essa temática de frente, sobretudo dando elementos didático-pedagógicos que valorizem a sua forma metodológica. A morte é um desses assuntos que se liga por sua própria natureza à religião, àreligiosidade e à espiritualidade. O ser humano diante da finitude se pergunta pelo sentido da vida, porque nascemos, vivemos e teremos que passar necessariamente pela morte. E depois dela, o que haverá? Como veremos, nem todas as religiões estão preocupadas com essa vida após a morte, ou a doutrina de algumas religiosidades ensina uma vida noutra dimensão. O certo é que todas as religiões, sem exceção,defendem a vida como algo sagrado, intocável por sua própria natureza.

1. Concepção africana da finitude humana

Para a concepção africana de morte vamos utilizar a apresentação didática feita por Prandi (2001, p.44), que parte da concepção do Candomblé, como “religião dos orixás formada na Bahia, no século XIX, a partir de tradições de povos iorubás, ou nagôs, com influências de costumestrazidos por grupos fons, aqui denominados jejes, e residualmente por grupos africanos minoritários”. Assim, esse candomblé baiano espalhou-se pelo Brasil, sendo que em Pernambuco é denominado por xangô e no Rio Grande do Sul por batuque. É importante estar atentos ao que o autor esclarece um pouco mais adiante em seu texto:


O candomblé angola, embora tenha adotado os orixás,que são divindades nagôs, e absorvido muito das concepções e ritos de origem iorubá, desempenhou papel fundamental na constituição da umbanda, no início do século XX, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Hoje, todas essas religiões e nações congregam adeptos que seguem ritos distintos, mas que se identificam, nos mais diversos pontos do país, como pertencentes a uma mesma população religiosa, ochamado povo-de-santo, que compartilha crenças, práticas rituais e visões de mundo, que incluem concepções da vida e da morte. (PRANDI, 2001, p.44).


A compreensão do sentido da morte para o grupo dos iorubás passa pela divisão feita do mundo em três planos: o Aiê, que é este nosso mundo, o do tempo presente; o Orum, que é o outro mundo, a morada dos deuses orixás e dos antepassados, o mundomítico do passado remoto; e o mundo intermediário dos que estão aguardando para renascer. Este mundo dos que vão nascer está próximo do mundo aqui-e-agora, o Aiê, e representa o futuro imediato, ligado ao presente pelo fato de que aquele que vai nascer de novo continua vivo na memória de seus descendentes, participando de suas vidas e sendo por eles alimentados, até o dia de seu renascimento comoum novo membro de sua própria família. Para os seguidores do candomblé e de outras religiões afro-brasileiras a morte é um tempo desprovido de sentido, sendo que depois dela o que se espera é voltar para este mundo, para o presente do Aiê.


2. Concepção indígena da finitude humana

Sobre a concepção de morte entre os indígenas brasileiros utilizaremos um nosso trabalho anterior,...
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