Filosofia

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Educação e Filosofia

A NATUREZA DA FILOSOFIA E O SEU ENSINO

Desidério Murcho*

RESUMO
Este artigo procura mostrar que a natureza da filosofia levanta
dificuldades ao modo como esta disciplina é geralmente lecionada
no Brasil. Argumenta-se que algumas das estratégias de ensino da
disciplina resultam de uma incapacidade para assumir a natureza
aberta e especulativa da filosofia, eexplica-se como se pode ensinar
filosofia de um modo que faça jus à sua natureza aberta.
Palavras-chave: Filosofia. Ensinar filosofia.
ABSTRACT
This paper intends to show that the nature of philosophy raises
difficulties regarding the way in which this subject is usually taught
in Brazil. It is argued that some philosophy teaching strategies stem
from an inability to accept the open andspeculative nature of
philosophy, and it is explained how philosophy can be taught in a
way that does full justice to its open nature.
Keywords: Philosophy. Teaching philosophy.

INTRODUÇÃO
Neste artigo defende-se duas idéias principais. Primeiro, que

*

Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto
e candidato a PhD pelo King’s College London. E-mail:desiderio@ifac.ufop.br

Educ. e Filos., Uberlândia, v. 22, n. 44, p. 79-99, jul./dez. 2008.

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compreender a natureza aberta e especulativa da filosofia é uma
condição necessária para uma compreensão fecunda do seu ensino.
E segundo, que para se ter uma compreensão fecunda do ensino
da filosofia é necessáriodistinguir cuidadosamente as competências
estritamente filosóficas da informação histórica, e a leitura filosófica
ativa dos textos dos filósofos da sua mera compreensão.
Abertura e especulação
A filosofia distingue-se de disciplinas como a história ou a física
por apresentar poucos resultados consensuais: a maioria dos
problemas centrais da filosofia continua em aberto. Não há respostasamplamente consensuais1 sobre se temos ou não livre-arbítrio, se
Deus existe, quais são os fundamentos da ética, ou sobre a natureza
da arte. Isto contrasta com a história, a biologia ou a física; nestas
disciplinas há muitíssimos resultados amplamente consensuais.
Contudo, seria um erro pensar que nestas disciplinas não há,
como em filosofia, problemas em aberto. Há problemas em aberto
emtodas as disciplinas, mas no caso da filosofia temos muitíssimos
mais problemas em aberto do que resultados consensuais. E é até
defensável que é nas fronteiras da física, por exemplo, que se
encontra a verdadeira natureza da disciplina, e não na imensidão
de resultados acumulados ao longo dos séculos.2
É importante compreender o que significa dizer que a maioria
dos problemas centrais dafilosofia continua em aberto. Esta
afirmação não significa três coisas.
Em primeiro lugar, não significa que não há resultados; claro
que há — as diferentes idéias defendidas pelos diferentes filósofos
1

2

Como a generalidade dos filósofos, Kant partilha esta perspectiva da filosofia,
mas tem a particularidade de a relacionar como tipo de ensino que isso implica.
Cf. o seu «Anúncio doPrograma do Semestre de Inverno de 1765-1766», pp.
2:306–307, in Immanuel Kant, Theoretical Philosophy, 1755-1770 (trad. de David
Walford. Cambridge: Cambridge University Press, 1992).
Como muitos outros cientistas, Jorge Buescu sublinha este aspecto
admiravelmente no seu livro de divulgação científica O Mistério do Bilhete de
Identidade e Outras Histórias (Lisboa: Gradiva, 2001).

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são resultados da filosofia. Só que não são resultados substanciais
consensuais, ou seja, resultados substanciais que a generalidade dos
filósofos aceite. Alguns filósofos defendem que temos livre-arbítrio,
outros defendem que não temos;...
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