Filosofia africana

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PAULIN J. HOUNTONDJI
Conhecimento de África, conhecimento de Africanos:
Duas perspectivas sobre os Estudos Africanos
Em que medida são africanos os chamados Estudos Africanos? O estudo da África, tal
como desenvolvido até hoje por uma longa tradição intelectual, faz parte de um projecto
abrangente de acumulação do conhecimento iniciado e controlado pelo Ocidente. Este
artigo defende que associedades africanas devem eles próprias apropriar‑se activa,
lúcida e responsavelmente do conhecimento sobre elas capitalizado durante séculos.
Defende, mais genericamente, o desenvolvimento em África de uma tradição autónoma,
confiante em si própria, de investigação e conhecimento que responda a problemas e
questões suscitados directa ou indirectamente por africanos. Convida osinvestigadores
africanos da área dos Estudos Africanos e de todas as outras disciplinas a compreenderam
que, até ao momento, têm vindo a levar a cabo um tipo de pesquisa maciçamente
extravertido, isto é, orientado para fora, destinado em primeira linha a ir ao encontro
das necessidades teóricas e práticas das sociedades do Norte. Propõe uma nova orientação
e novas ambições para a investigação feita porafricanos em África.
A la mémoire de John Conteh-Morgan
Quando falamos de estudos africanos, normalmente estamos a referir-nos
não apenas a uma disciplina, mas a todo um leque de disciplinas cujo objecto
de estudo é África. Entre estas incluem-se, frequentemente, disciplinas
Este artigo é uma versão revista de uma conferência proferida na cerimónia de abertura da
Bayreuth InternationalGraduate School of African Studies (BIGSAS), na Universidade de Bayreuth,
na Alemanha, em 13 de Dezembro de 2007. Os meus agradecimentos à Fundação Alexander von
Humboldt, por nessa altura me ter dado a possibilidade de alargar por três meses a estada na
Alemanha, para efeitos de investigação. A primeira bolsa de estudo que me foi concedida pela
fundação Humboldt remonta a 1980-1982. Fui acolhidopelo Instituto de Filosofia da Universidade
de Düsseldorf, então dirigido pelo Professor Alwin Diemer, que já não se encontra entre nós.
John Conteh-Morgan foi professor associado de Literatura Francesa e Francófona na Ohio State
University. Faleceu a 3 de Março de 2008. Soube da sua morte quando estava a terminar este artigo.
Respeitosamente, dedico-lhe este trabalho em memória de uma velhaamizade. John e eu conhecemo-
nos no final da década de 60 na Universidade de Besançon, em França, quando eu iniciava
a minha carreira académica, como assistente de filosofia, e ele estava a terminar a sua Maîtrise em
Francês. Foi com surpresa e enorme alegria que o reencontrei de novo nos EUA. Ainda possuo
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como a “história africana”, “antropologia e sociologiaafricanas”, “linguística
africana”, “política africana”, “filosofia africana”, etc. Torna-se inevitável,
por isso, colocar uma primeira questão: existirá algum tipo de unidade
entre estas disciplinas? Será que apenas se relacionam individualmente com
África, sem estarem interrelacionadas de uma qualquer forma? Será que
simplesmente se sobrepõem umas às outras, estudando o mesmo objecto a
partir deperspectivas e ângulos diferentes, ou serão, pelo contrário, interdependentes
ao ponto de estarem sujeitas a crescer ou desaparecer juntas?
Facilmente se depreende o que isto implica: se estas disciplinas não necessitam
umas das outras, se cada uma delas consegue florescer por si só sem
recorrer a disciplinas vizinhas, então não há qualquer necessidade de as
reunir numa mesma instituição, nemde criar institutos de estudos africanos.
Na verdade, partimos do pressuposto de que estas disciplinas estão de
algum modo interrelacionadas e temos boas razões para o fazer. Por exemplo,
entre a história africana e a sociologia africana existe, claramente, uma
complementaridade objectiva, visto que a situação presente de qualquer
sociedade decorre, directa ou indirectamente, do respectivo...
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