Fichamento do livro - o espectador emancipado. ranciere, j.

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RANCIÈRE, J. O espectador emancipado. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.

[...] Esse paradoxo é simples de formular: não há teatro sem espectador. Ora, como dizem os acusadores, é um mal ser espectador, por duas razões. Primeiramente, olhar é o contrário de conhecer. O espectador mantém diante de uma aparência ignorando o processo de produção dessa aparência ou a realidade por elaencoberta. Em segundo lugar, e o contrario de agir. O espectador fica imóvel em seu lugar, passivo. Ser espectador é estar separado ao mesmo tempo da capacidade de conhecer e do poder de agir. (p.8)

“É a conclusão outrora formulada por Platão: o teatro é o lugar onde ignorantes são convidados a ver sofredores.” (p.9)

[...] Quem diz teatro diz espectador, e isso e um mal, disseram eles. Esse é ocirculo do teatro que nós conhecemos, que nossa sociedade modelou a sua imagem. Portanto, precisamos de outro teatro, um teatro sem espectadores: não um teatro diante de assentos vazios, mas um teatro no qual a relação óptica passiva implicada pela própria palavra seja submetida a outra relação, a relação implicada em outra palavra, a palavra que designa o que é produzido em cena, o drama. Drama querdizer ação. O teatro é o lugar onde uma ação é levada a sua consecução por corpos em movimento diante de corpos vivos por mobilizar.[...] (p.9)

“[...] É preciso um teatro sem espectadores, em que o assistente aprendam em vez de ser seduzidos por imagens, no qual eles se tornem participantes ativos em vez de serem voyeurs passivos.” (p.9)

[...] é preciso arrancar o espectador ao embrutecimento doparvo fascinado pela aparência e conquistado pela empatia que o faz identificar-se com as personagens da cena. A este será mostrado, portanto, um espetáculo estranho, inabitual, um enigma cujo sentido ele precise buscar. Assim, será obrigado a trocar a posição de espectador passivo pela de inquiridor ou experimentador cientifico que observa os fenômenos e procura suas causas. [...] (p.10)

“[...]Desse modo, precisará aguçar seu próprio senso de avaliação das razoes, da discussão e da escolha decisiva.” (p.10)

[...] O espectador deve ser retirado da posição de observador que examina calmamente o espetáculo que lhe é oferecido. Deve ser desapossado desse controle ilusório, arrastado para o circulo mágico da ação teatral, onde trocará o privilegio de observador racional pelo do ser naposse de suas energias vitais integrais. (p.10)

Tais são as atitudes fundamentais que resumem o teatro épico de Brecth e o teatro da crueldade de Artaud. Para um, o espectador deve ganhar distância; para o outro, deve perder toda e qualquer distancia. Para um deve refinar o olhar; para o outro, deve abdicar da própria posição de observador. (p.10)

Os reformadores do teatro reformularam a oposiçãoplatônica entre korea e teatro como a oposição entre a verdade do teatro e o simulacro do espetáculo. Fizeram do teatro o lugar onde o publico passivo de espectadores devia transformar-se em seu contrario: o corpo ativo de um povo a pôr em ação o seu principio vital. O texto de apresentação da Sommerakademie que me acolhia expressava-o nos seguintes termos: “O teatro continua sendo o único lugar deconfrontação do publico consigo mesmo como coletividade.” Em sentido restrito, a frase quer apenas distinguir a audiência coletiva do teatro dos visitantes individuais de uma exposição ou da simples soma de entradas no cinema. Mas está claro que significa mais. Significa que “o teatro” é uma forma comunitária exemplar. Implica uma idéia da comunidade como presença para si, oposta a distancia darepresentação. Desde o romantismo alemão, a reflexão sobre o teatro passou a ser associada a essa idéia de coletividade viva. O teatro mostrou-se como uma forma de constituição estética – da constituição sensível – da coletividade. Entenda-se aí a comunidade como maneira de ocupar um lugar e um tempo, como o corpo em ato oposto ao simples aparato das leis, um conjunto de percepções, gestos e...
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