Fantasia

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ARTIGOS
Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., IV, 3, 67-88

Delírio, fantasia e devaneio: sobre a função da vida imaginativa na teoria psicanalítica*
Thaís de Souza Teixeira

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Trabalho teórico de enfoque psicanalítico, cujo objetivo é estudar os fenômenos de delírio, fantasia e devaneio de forma a compreender sua natureza e seus processos, mecanismos e funções dentro da dinâmica psíquicahumana. Utilizam-se os casos de referência, “Homem dos ratos”, o “Caso Schreber” e a “‘Gradiva’ de Jensen”, além do artigo de Freud “Uma criança é espancada”, para ilustrar as reflexões. Conclui-se que os três são conceitos estruturalmente diferentes, com processos, mecanismos e funções próprios, mas com aproximações que os tornam passíveis de confusão. Palavras-chave: Delírio, fantasia, devaneio,neurose, psicose

* Artigo escrito a partir do trabalho de mesmo título vencedor do concurso “Ana Maria Popovic” de melhor Trabalho de Conclusão de Curso de 1999 pela PUC-SP.

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LATINOAMERICANA F U N D A M E N T A L DE PSICOPATOLOGIA

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Introdução O presente trabalho surgiu da necessidade de precisar conceitualmente em que consistem as fantasias e devaneios a quetodos nos entregamos, de vez em quando, ao longo de nossas vidas. Atividades como atendimento a pacientes psicóticos levantam questões sobre o funcionamento da vida imaginativa, tais como: Qual é a natureza do delírio? Quais as relações entre o devanear, o fantasiar e o delirar? Quais os limites entre cada um destes conceitos? Possuem todos o mesmo princípio? No que concerne às produçõesfantasiosas, onde termina a normalidade e começa a patologia? Neste sentido, quais os pontos de contato, neste campo, entre a neurose e a psicose – ou não há nenhum? Não tive, é claro, a pretensão de esgotar todas estas questões, mas sim tornar mais claras algumas fronteiras e também pontos de contato entre os conceitos de delírio, fantasia e devaneio. Considerei, para isto, aspectos da neurose e dapsicose, de forma a evitar o uso indiscriminado de conceitos que acabam, muitas vezes, sendo confundidos entre si. Para melhor explicitar os mecanismos envolvidos nos fenômenos de delírio, fantasia e devaneio, baseei-me nos casos clínicos de Freud que, acredito, melhor elucidam estes conceitos. São eles o “Homem dos ratos”, o “Caso Schreber” e a “‘Gradiva’ de Jensen”, além do artigo de 1919, “Umacriança é espancada”. O “Homem dos ratos” e o “Caso Schreber” serão relacionados ao delírio na neurose e na psicose, respectivamente, e a “‘Gradiva’ de Jensen”, por sua vez, será discutida no capítulo sobre devaneio. Já o material utilizado para a discussão do capítulo “Fantasia” será o artigo “Uma criança é espancada”, que, mesmo não constituindo um caso clínico específico como os demais, será utilizadocomo o artigo de referência deste capítulo por sua extrema relevância com relação ao tema. O delírio na neurose e na psicose Analisaremos aqui o modo como a psicanálise compreende o fenômeno do delírio em formações patológicas neuróticas e psicóticas. Freud (1924) assim descreve a diferença estrutural entre a neurose e a psicose: “... a neurose é o resultado de um conflito entre o ego e o id, ao68

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passo que a psicose é o desfecho análogo de um distúrbio semelhante nas relações entre o ego e o mundo externo”. Esta definição é desenvolvida a partir da idéia de conflito e de defesa, segundo a qual o conflito se daria entre duas instâncias (ego x id ou ego x mundo externo), ao passo que a defesa seria investida contra as representações intoleráveis: recalque (Verdrangung) erejeição (Ververfung). Tal definição apresenta as duas grandes estruturas psíquicas dentro das quais pretende-se, neste estudo, destacar a função exercida pelo delírio, bem como suas semelhanças e diferenças fundamentais. A neurose é compreendida pela psicanálise como tendo origem na luta do ego por manter afastado, recalcado, neutralizado, “soterrado” (para fazer uma alusão à “Gradiva”) no...
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