Epidemias e medicina no brasil império

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Epidemias e medicina no Brasil Império (1822-1889)
“Ano de mangas, ano de febre amarela”. No Brasil Império, as epidemias eram relacionadas com calor e umidade, e tão frequentes quanto as frutas da época
Por Jaime Benchimol*

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15/10/2010
Quando os exércitos napoleônicos penetraram em Lisboa, ainda se avistava no horizonte a esquadra que, sob escoltainglesa, transportava o príncipe regente D. João e sua corte para o Rio de Janeiro, onde desembarcaram em 8 de março de 1808. O novo estado luso-brasileiro foi então aparelhado com várias instituições novas: Imprensa Régia, Academia Real Militar, Biblioteca Real etc. Praticada por uma constelação de tipos sociais e raros médicos com formação universitária, a medicina tornou-se instituição à parte,com os cursos de cirurgia e anatomia nos hospitais militares do Rio de Janeiro e de Salvador (1808), que se transformaram, em 1832, nas duas únicas faculdades de medicina que o país teve até o século XX.
Os problemas de saúde do Brasil só então começaram a ser debatidos, nessas instituições e na Sociedade de Medicina e Cirurgia, transformada, no período regencial, na Academia Imperial de Medicina(1835). Os médicos aí encastelados comemoravam a ausência da febre amarela, peste bubônica e cólera, doenças que devastavam a Europa e outras regiões. Isso fortalecia a argumentação dos ‘nativistas’ contra a crença disseminada entre europeus de que os trópicos eram irremediavelmente malsãos, impermeáveis à civilização.

A febre amarela ‘aportou’ no império brasileiro no verão de 1849-50. No Riode Janeiro, atingiu 90.658 e matou 4.160 de seus 266 mil habitantes (houve quem falasse em até 15 mil mortes). O impacto foi igualmente elevado em Salvador e Belém, então com 45,5 mil e 16 mil habitantes, respectivamente.

Dividido entre senhores e escravos, como todas essas cidades, o Rio de Janeiro prosperava, articulando a lavoura escravista do café em expansão no vale do Rio Paraíba com omercado mundial. Suas ruas eram ocupadas por uma multidão de ‘escravos de ganho’ que alugavam cotidianamente sua capacidade de trabalho nos mais diferentes misteres. A escravaria doméstica executava os múltiplos serviços que as moradias senhoriais requeriam, inclusive o recolhimento de água em chafarizes e poços e a retirada de esgotos — em barris, em seguida despejados no mar ou em valas, o que davaàs cidades de então um cheiro nauseabundo.

Os poucos médicos atuantes naquela sociedade escravocrata a princípio julgavam indigno lidar com qualquer trabalho manual, deixando esse tipo de afazer às demais categorias, ligadas às artes de curar baseadas em saberes de origem africana, indígena ou europeia: barbeiros, sangradores, padres, curandeiros, parteiras e benzedeiras cuidavam dasdisenterias, febres, verminoses, bexigas, banzos e outros males de escravos e com frequência de seus donos. No Segundo Império, que começa com a coroação de D. Pedro II, em 1841, período marcado por grandes transformações sociais e econômicas, os médicos diplomados já metiam a ‘mão na massa’: com a ajuda do estetoscópio, inventado pelo francês René Laennec (1816), mas principalmente com seus cincosentidos, eram capazes de registrar grande quantidade de sinais no corpo — cheiros, cores, ruídos, consistências — associando tais informações às que conseguiam através de longas conversas para situar cada paciente em seu meio ambiente, de importância decisiva para explicar seus padecimentos.

Os médicos de então situavam as causas desses padecimentos, de um lado, nas predisposições orgânicas doindivíduo — influenciadas pelo regime alimentar,  moradia,  trabalho,  maneira de vestir etc. — e, de outro, na natureza daquelas latitudes quentes e úmidas e no ambiente artificialmente criado nas fervilhantes cidades oitocentistas.
Administrativamente, as questões relativas à saúde (ou higiene) pública a princípio não se diferenciavam de outros aspectos da vida urbana e ficavam a cargo da Igreja,...
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