Entre o passado e o futuro

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ARENDT, Hannah. Entre o passado e o Futuro. São Paulo: Editora Perspectiva, 1997.
PREFÁCIO: A QUEBRA ENTRE O PASSADO E O FUTURO

Notre héritage n'est précéde d'aucun testament – "Nossa herança nos foi deixada sem nenhum testamento". Talvez esse seja o mais estranho dentre os aforismos estranhamente abruptos em que o poeta e escritor francês René Char condensou a essência do que vieram asignificar quatro anos na Résistance para toda uma geração de escritores e homens de letras europeus1,

(I) Ver, para essa citação e as subseqüentes, René Char, Feulllets d'Hypnos, Paris, 1946. Escritos durante o último ano da Resistência, de 1943 a 1944,. e publicados na Collection Espoir, organizada por Albert Camus, tais aforismos, juntamente com obras posteriores, apareceram em inglês sob o tituloHypnos Waking; Poems and Prose, New York, 1956.

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o colapso da França, acontecimento totalmente inesperado para eles, esvaziara, de um dia para outro, o cenário político do país, abandonando-o às palhaçadas de patifes ou idiotas; e eles, a quem nunca ocorrera tomar parte nos negócios oficiais da Terceira República, viram-se sugados para a política como que pela força de um vácuo. Dessemodo, sem pressenti-lo e provavelmente contra suas inclinações conscientes, vieram a constituir, quer o quisessem ou não, um domínio público onde - sem a parafernália da burocracia e ocultos dos olhos de amigos e inimigos - levou-se a cabo, em feitos e em palavras, cada negócio relevante para os problemas do país.
Isso não durou muito. Após alguns curtos anos, foram liberados do queoriginalmente haviam pensado ser um "fardo" e arremessados de volta àquilo que agora sabiam ser a leviana irrelevância de seus afazeres pessoais, sendo mais uma vez separados do "mundo da realidade" por uma épaisseur triste, a "opacidade triste" de uma vida particular centrada apenas em si mesma. E, se se recusavam a "voltar às [suas] verdadeiras origens, a [seu] miserável comportamento", nada lhes restavasenão retomar à velha e vazia peleja de ideologias antagônicas que, após a derrota do inimigo comum, de novo ocupavam a arena política, cindindo os antigos companheiros de armas em grupelhos sem conta, que não chegavam sequer a constituir facções, e alistando-os nas intermináveis polêmicas de uma guerra de papel. Aquilo que Char previra e antecipara lucidamente enquanto a luta real ainda prosseguia"Se sobreviver, sei que terei de romper com o aroma desses anos essenciais, de rejeitar silenciosamente (não reprimir) meu tesouro" - acontecera. Eles haviam perdido seu tesouro.
Que tesouro era esse? Conforme eles mesmos o entenderam, parece ter consistido como que de duas partes interconectadas: tinham descoberto que aquele que "aderira à Resistência, encontrara a si mesmo", deixara de estar "àprocura [de si mesmo] desgovernadamente e com manifesta insatisfação", não mais se. suspeitara. de "hipocrisia" e de ser "um ator da vida resmungão e desconfiado", podendo permitir-se "desnu-

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dar-se". Nessa nudez, despido de todas as máscaras, tanto daquelas que a sociedade designa a seus membros como das que o indivíduo urde para si mesmo em suas reações psicológicas contra asociedade, eles haviam sido, pela primeira vez em suas vidas, visitados por uma visão da liberdade; não, certamente, por terem reagido à tirania e a coisas piores - o que foi verdade para todo soldado dos Exércitos Aliados -, mas por se haverem tornado "contestadores", por haverem assumido sobre seus próprios ombros a iniciativa e assim, sem sabê-lo ou mesmo percebê-lo, começado a criar entre si umespaço público onde a liberdade poderia aparecer. "A cada refeição que fazemos juntos, a liberdade é convidada a sentar-se. A cadeira permanece vazia, mas o lugar está posto".

Os homens da Resistência Européia não foram nem os primeiros nem os últimos a perderem seu tesouro. A história das revoluções - do verão de 1776, na Filadélfia, e do verão de 1789, em Paris, ao outono de 1956 em Budapeste...
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