Entre a biopolítica contemporânea e a biopotência do desenvolvimento comunitário autogestionário – fios de desafios da aliança solidária da leopoldina e adjacências

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  • Publicado : 7 de novembro de 2011
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1 INTRODUÇÃO

Eis que começo a escrever este texto, o qual pretende ser uma narrativa da história recente de constituição de um movimento em rede formado por grupos populares que residem em comunidades empobrecidas pelo jogo da política do capitalismo neoliberal. A dissertação pretende ser a história dessas pessoas que têm procurado não aderir, pelo menos totalmente, aos “pacotes” desubjetividade; ou seja, a modos de ser, pensar, agir, sentir, trabalhar e viver veiculados pelas máquinas midiáticas, jornais, telejornais, rádios, telenovelas, comerciais, programas de auditório, mas igualmente escolas, serviços de saúde e assistência e disciplinas científicas instituídas. Alternativamente, buscam afirmar outros modos de viver e de conduzir a vida, modos singulares e legítimos. Trata-sede uma gente que tem utilizado a integralidade do seu ser em seus platôs cognitivo, metacognitivo, afetivo, comportamental e vital para dar vazão à potência criativa, à força-invenção, à força-intelecto (PÉLBART, 2003, p. 10), para resistir minimamente, nas ondulações do cotidiano, à tecnologia de poder que incide sobre os corpos individuais tentando adestrá-los, normalizá-los, regular sua conduta,organizá-los no espaço da forma prescrita em uma norma, serializá-los e eventualmente, puni-los, bem como à tecnologia de poder que incide sobre o corpo coletivo através de ações e projetos de controle e normalização das várias dimensões da vida da população (natalidade, mortalidade, endemias, segurança, meio-ambiente,...) (FOUCAULT, 2000. p. 286 – 293).
Escrevo, pois, sobre a trajetória deorganização de pessoas que vêm exercendo, a partir de suas forças vitais inventivas, possibilidades singulares de viver, pensar, sentir, agir, trabalhar e relacionar-se, através de um trabalho em rede que visa a compreender como essas tecnologias de poder vêm ganhando consistência em nosso cotidiano, a fim de criar outros caminhos de afirmação da vida através de uma proposta de desenvolvimentocomunitário para a região da zona norte da cidade do Rio de Janeiro, chamada Leopoldina. Sendo assim, o que está em discussão nessa rede de movimentos sociais da Leopoldina, a Aliança Solidária da Leopoldina e Adjacências (ASLA), não é uma proposta de desenvolvimento comunitário trazida para a região de fora para dentro, de cima para baixo, a partir das cabeças geniais de algum círculo de notáveis.Trata-se da construção compartilhada de uma proposta de desenvolvimento comunitário para a Leopoldina, ou seja, de uma proposta que está sendo produzida entre a ASLA e os moradores de comunidades dos quatro complexos da região (Maré, Manguinhos, Penha, Alemão e adjacências) a partir das experiências, vivências, saberes e ações de muitas pessoas – um coletivo que tem tentado funcionar sem aceitar quequalquer subgrupo ou pessoa, inclusive dentro dele, venha a governar as ações dos outros. Trata-se de um longo processo de construção de um desenvolvimento comunitário autogestionário, iniciado em 2002, a partir das populações e voltado para populações.
Aquele que escreve tem se revelado um pesquisador integrante dessa ASLA desde setembro de 2002, na medida em que vem desenvolvendo ações,através de diversos dispositivos, para possibilitar a autoanálise e a autogestão (BAREMBLITT, 1998) dessa rede de cooperação mútua de movimentos sociais. Desde 2005, venho documentando a trajetória da ASLA em diários de campo, nos quais tenho narrado os passos que têm sido dados com o suporte analítico de autores como Michel Foucault, Gilles Deleuze, Felix Guattari, Antonio Negri, Giorgio Agamben etc.A partir das narrativas em meus diários de campo, encontrei questões em torno das quais poderia organizar um projeto de dissertação a ser apresentado como requisito ao título de mestre em Psicologia Social. Percebi que no caminho de formulação da proposta de desenvolvimento comunitário autogestionário por parte da ASLA havia a incidência de tecnologias de poder já descritas por Foucault em...
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