Empreendedorismo

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  • Publicado : 14 de setembro de 2011
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Um novo tipo de empresário
Depois de perderem bons empregos na crise, executivos fundam seu próprio negócio e mudam o perfil do empreendedorismo no Brasil
Renata Betti

Dos computadores para os grelhados

O economista João Böer, 44 anos, desesperou-se quando soube que perderia seu emprego como diretor de vendas da Oracle, multinacional de tecnologia em que trabalhava havia uma década. "Sóconseguia pensar em arranjar um emprego parecido, mas o telefone da minha casa não tocava", conta. Em meio à crise e sem enxergar uma saída a curto prazo, Böer tomou uma difícil decisão: ele, que jamais havia pensado em ter o próprio negócio, resolveu investir algo como 500 000 reais num restaurante de grelhados em São Paulo. Isso depois de analisar dezenas de possibilidades. "Comida está dandodinheiro", diz o economista, que já entendia o suficiente de finanças para montar uma empresa – mas nada de comida. "Fiz um curso para aprender, literalmente, o feijão com arroz."
Onde ele acertou: optou por abrir sua empresa num dos setores que mais crescem no país – o de alimentação.
Onde ele errou: dispensou um processo seletivo mais demorado e já precisou trocar três dos 22 funcionários.A crise fez surgir no Brasil um novo tipo de empreendedor. É gente que jamais havia pensado em ter o próprio negócio até perder recentemente o emprego e se ver sem perspectiva de arranjar outro. Eles ocupavam bons cargos em grandes corporações e, juntando o fundo de garantia à rescisão de contrato, receberam, ao sair, dinheiro suficiente para começar uma empresa. Um novo estudo da consultoriaDBM, uma das maiores em recolocação de executivos do mundo, dimensiona o fenômeno no Brasil – que repete, numa escala menor, o cenário nos Estados Unidos. O levantamento mostra que, desde outubro passado, o momento mais agudo da crise, cresceu em 60% o número de brasileiros que, uma vez demitidos, decidiram partir para um negócio próprio. Até agora, são algo como 100 000 pessoas. Eles não têmperfil aventureiro: 90% procuram alguma espécie de assessoria antes de montar sua empresa. Ainda que suas experiências no antigo emprego possam ser de grande valia, reconhecem que muitas das situações que se apresentam agora são inteiramente novas – não apenas porque se tornaram donos de um negócio pela primeira vez, mas também porque a maioria mudou de área. É o caso do engenheiro Raul Bonan, 38anos, e de sua mulher, a advogada Christiane Magalhães, 35, hoje à frente de duas lanchonetes especializadas em servir chá-mate no Rio de Janeiro. Diz a ex-executiva de banco: "É um desafio começar uma nova carreira a esta altura da vida".
O surgimento dessa nova geração de empreendedores ajuda a explicar por que o número de pequenas empresas no país já subiu tanto neste ano – o crescimento foida ordem de 20%, de acordo com um relatório recém-consolidado pelo Departamento Nacional de Registro do Comércio. Os negócios tocados por esses novatos, no entanto, têm indicadores bastante diferentes daqueles que marcam, tipicamente, o empreendedorismo no Brasil. A começar pelo capital investido de saída, até 500 000 reais, bem mais do que os 20 000 reais com os quais se inicia, em média, umnegócio no país. Com diploma de ensino superior e, em muitos casos, até com MBA no currículo, os novatos também contribuem para o aumento na escolaridade dos empresários brasileiros – em geral, muito baixa. Para se ter uma ideia, apenas 17% dos donos de empresa no país pisaram numa universidade. "Esses ex-executivos têm um perfil bem raro entre os empreendedores no Brasil", diz Ricardo Tortorella,diretor do Sebrae. Eles estão, sem dúvida, em melhores condições para vingar num cenário em que um terço das empresas abertas no país fecha antes de completar um ano. "Com mais dinheiro para investir e preparo para levar um negócio adiante, têm infinitamente mais chances de prosperar", afirma o economista Maílson da Nóbrega.
Ainda que iniciem o negócio em vantagem, a curta experiência dos novos...
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