Ella

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  • Publicado : 19 de janeiro de 2013
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ELLA

Ella está ansiosa ...
Hoje é um dia muito especial! Arruma os cabelos como se fizesse alguma diferença... Procura a sua volta, talvez encontre um indício de que realmente ele virá. Seus cabelos estão soltos, anéis loiros emolduram este rosto que teima em permanecer jovem, apesar do tempo.
Caminhando pela trilha estreita, se sobressalta ao ouvir barulhos na floresta. Cada passo é umdesafio conquistado com prazer.
Seus pensamentos transportam parte de sua atenção para um passado que ela já não lembrava ter vivido. Sorrindo, constata que o tempo como é contado não passa de uma questão de como se posiciona o observador. Neste momento, seus passos são rápidos e ágeis, carrega uma carabina nas costas, munição extra na algibeira e o inseraparável facão, que garante suapassagem através dos cipós que formam um emaranhado quase intransponível, tornando o caminho mais difícil.
Atrás de cada árvore pode estar um animal feroz e atacá-la, ou surgir no caminho, uma serpente com bote pronto para atingi-la mortalmente. Porém, não é este o único receio... seu temor é com o bicho homem. Este sim, capaz de armar uma emboscada fatal. Esta é uma terra sem lei, onde garimpeirosinfestam a região, matam e morrem por um punhado de ouro. Ela evita as trilhas conhecidas, por serem estas as mais perigosas e avança pela mata, guiada pela intuição. Os tambores que dão ritmo ao seu coração, são os mesmos que indicam o caminho que, salva ou mata, e a partir do momento que se acessa não mais depende do viajante. O povo da floresta o percorre quando esta em perigo, o branco, quandoestá perdido, e é ele, o caminho, que decide pelo viajante. Ao ouvir o barulho do rio, ela sorri, sabe que em alguns minutos estará longe do alcance das garras tecidas pela ganância do homem. Nenhum branco ousaria transpor os limites das terras sagradas, onde mora a morte...
Da margem, ela admira a beleza do lugar. Uma enorme cachoeira ruge como um dragão, e as torrentes de águas se espremem entrepedras formando uma violenta corredeira. Sem dúvida, qualquer pessoa que tentasse transpor aquele turbilhão, morreria imediatamente. Aquelas águas sagradas protegem e decidem quem poderá atingir o outro lado.
Colorido pelos raios avermelhados do sol que se põe, o paredão da margem oposta torna-se mais vermelho. Parece que os pequenos veios d’água que escorrem, são realmente o sangue daqueles queousaram violar esta terra sagrada, uma lenda alimentada pelas muitas vezes que isso realmente aconteceu. Porém, neste momento, Ella sabe que não passa de uma ilusão maravilhosa, causada pelo reflexo do sol.
Mais alguns minutos a lua surgirá, enorme, completamente pronta para ser fecundada... terá que ser rápida e precisa, ou será parte da mais antiga lenda do lugar. Ella não teme, foram tantasas vezes que fez a travessia... porém, cada vez é como se fosse a primeira. Na verdade, é esse sentimento que garante o sucesso da passagem.
Cumpridos os rituais, entra determinada no rio. Caminha em direção à queda d’agua. A profusão violenta dá a impressão que a morte esta esperando no próximo passo... caminha com cuidado, mas não deixa de admirar a beleza das águas que, de perto, sãocompletamente cristalinas. Cada passo é uma dádiva e a lua refletida no fundo pedregoso do rio, torna a água feita de luz. Se houvesse uma pessoa na margem, diria que as águas do rio a engoliram e isso, não deixa de ser verdade. Ela atravessa a lamina d’agua, caminha alguns metros na caverna previamente iluminada para esperá-la, e chega na aldeia.
A fogueira esta pronta, os guerreiros pintados, asmulheres adornadas com penas das mais variadas cores. Curumins correm atrás de seus animais de estimação. Pequenos macacos, uma ou outra jaguatirica, as muitas araras e papagaios da aldeia, teimam em não dormirem pois percebem que esta será uma noite especial ...
Sua chegada é anunciada pelo latido de um grande e negro cão. Fora encontrado na floresta e trazido para lá há tanto tempo, que já não...
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