Economia e direito

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CELSO FURTADO E O MITO DO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO
Clóvis Cavalcanti*

Introdução

Entre os economistas de língua portuguesa, até hoje, penso que Celso Furtado seja, sem dúvida, o que mais tem se detido, e em profundidade, nas noções relativas ao desenvolvimento econômico, incluindo uma elaborada reflexão sobre o subdesenvolvimento – a exemplo do que faz em Desenvolvimento eSubdesenvolvimento (1961), livro que se amplia em volume posterior, Teoria e Política do Desenvolvimento Econômico (1967). Como calouro de ciências econômicas no Recife, em plena efervescência do ano de 1960, quando Furtado iniciava sua trajetória de superintendente da Sudene, fui naturalmente levado a dispensar atenção especial ao que fazia esse ícone da profissão, seja em seu papel de dirigentede uma agência de planejamento do desenvolvimento regional, seja em sua qualidade de mestre da economia, com obras publicadas já então do porte de A Economia Brasileira (1954) e, mais ainda, do clássico Formação Econômica do Brasil (1959). Comecei minha vida de economista, pois, lendo Celso Furtado – e também ouvindo-o, pois comparecia sempre às reuniões do Conselho Deliberativo da Sudene, a queassistia com enorme interesse e curiosidade intelectual. Nesses encontros, Furtado pontificava, dando verdadeiras aulas e travando interessantes diálogos não só com governadores como Cid Sampaio (de Pernambuco), Aluísio Alves (do Rio Grande do Norte), Juracy Magalhães (da Bahia), mas ainda com outro exponente do pensamento social brasileiro, Gilberto Freyre, que representava o Ministério daEducação e Cultura no colegiado da Sudene. Mais tarde, no ano acadêmico de 1964-1965, quando eu fazia o mestrado em economia na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, tive o privilégio de conviver de perto com Furtado, que, como exilado – situação, na verdade, que o constrangia –, se desempenhava na posição de professor visitante do Centro de Crescimento Econômico daquela egrégia instituição acadêmica.No restante deste artigo pretendo oferecer minha visão de uma contribuição de Celso Furtado que considero das mais importantes à reflexão substantiva sobre os problemas de uma sociedade que se empenha para sair do atraso econômico e da pobreza. Trata-se da idéia que ele expõe corajosamente em seu livro O Mito do Desenvolvimento Econômico (1974), inequivocamente expressa no título da obra – quepassarei doravante, para economizar espaço, a chamar de Mito –, do caráter de fábula da proposta convencional de promoção do desenvolvimento. Começo, na seção seguinte, mostrando de que maneira Furtado percebe o subdesenvolvimento, continuando, nas três seções subsequentes, com sua idéia do mito propriamente, com o problema dos impactos econômicos no meio físico e uma avaliação final do livro, naqual se ressaltam as dimensões culturais do desenvolvimento.

O Subdesenvolvimento

O que impressiona em Celso Furtado é sua forma original de perscrutar as noções relacionadas com o processo de desenvolvimento, procurando entender, com base em método histórico-estruturalista, a gênese da formação do subdesenvolvimento. Nesse sentido, é importante reconhecer o fato de que Furtadooferece uma contribuição intelectual singular à análise do fenômeno do progresso, detendo-se não só nos seus aspectos econômicos, mas também nos sociais, culturais e políticos. Sua visão é, com efeito, mais interdisciplinar do que a prática entre economistas, como reconhece seu colega de profissão Werner Baer (1974) – quem também registra uma simpatia pessoal (Baer, 1969) com respeito à avaliaçãode Furtado acerca da inadequação das ferramentas da teoria econômica para a abordagem dos problemas do desenvolvimento [1]. Furtado, pode-se dizer, é aquilo que Gilberto Freyre chamaria de um “mais-que-economista”, e disso dá mostras em seu estudo ao longo de quase cinquenta anos acerca da problemática do desenvolvimento, no que é devedor, como ele próprio reconhece (Mito: 13), do aprendizado...
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