Drogas e emoções

Páginas: 8 (1952 palavras) Publicado: 16 de janeiro de 2011
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Drogas e emoções

1. Introdução
O consumo abusivo de drogas ou a sua dependência é um fenómeno ancorado corporalmente ou, como Leshner afirmou, “uma doença do cérebro” (Leshner, 1997b). De facto, a extensa bibliografia publicada desde 1966 até ao presente tem vindo a confirmar a implicação das estruturas e dos circuitos cerebrais não só na fase aguda mas também na fase crónica destaperturbação (cf., para revisão, Marques-Teixeira, 1998). Todo este corpo empírico de conhecimentos aumentou, em muito, a nossa compreensão sobre os processos neurobiológicos que estão na base desta perturbação, sendo hoje consensual a implicação de um conjunto de múltiplos sistemas neurofisiológicos e neuroquímicos quer no desenvolvimento quer na expressão da dependência às drogas. No planoneurofisiológico, têm sido apontados alguns défices cognitivos em sujeitos dependentes de substâncias (Wilson, 1987; Miller, 1990, 1991; Giancola et al., 1996a; Giancola et al., 1996b; McCusker, 2001) associados a disfunções nas regiões pré-frontais (Volkow et al., 1996; Gatley & Volkow, 1998; Volkow et al., 1999; Lokwan et al., 2000;Volkow & Fowler, 2000; Goldstein et al., 2001) e no sistema límbico(Graybiel et al., 1990; Imperato et al., 1992; Di Chiara, 1997; Rodriguez de Fonseca & Navarro, 1998; Alburges & Hanson, 1999; Childress et al., 1999; Alburges et al., 2000; Ciccocioppo et al., 2001). No seu conjunto, estes estudos sugerem a existência de défices na avaliação das situações, impulsividade e padrões compulsivos do comportamento em resultado de alterações na capacidade de avaliaçãodas consequências e de actuar segundo essa avaliação. No plano neuroquímico têm sido referidas altas concentrações de dopamina e serotonina nas regiões límbico-frontais (Schmidt et al., 1996; Sulzer et al., 1998; Cummings, 2000), tendo sido sugerido que as suas consequências se traduzem em aumento das actividades de risco (Bardo et al., 1996) e em estados emocionais intensos (Schultz, 2000).

J.Marques-Teixeira Psiquiatra Professor Associado com Agregação da Universidade do Porto

Mais recentemente começaram a ser divulgadas as diferenças entre os cérebros de sujeitos dependentes e de indivíduos não dependentes, sugerindo a presença de alguns elementos comuns à toxicodependência, independentemente da natureza da substância em causa (Gatley & Volkow, 1998; Wise, 2000). Nomeadamente, oscérebros dos toxicodependentes manifestam alterações na actividade metabólica, na disponibilidade de receptores, na expressão genética e na resposta a pistas ambientais (Ortiz et al., 1995; Hyman, 1996; Nestler, 1996; Melega et al., 1997). O racional subjacente a estas conclusões enferma de uma linearidade e de um reducionismo incompatíveis com a racionalidade científica actual, pois pressupõe umarelação de causalidade directa entre o domínio neurofisiológico / neuroquímico e o domínio comportamental. Não só não é legítimo, à luz dos conhecimentos actuais sobre as relações entre o cérebro e o comportamento, proceder a este tipo de extrapolações como, à semelhança de outra qualquer perturbação do comportamento, a toxicodependência está também ligada a aspectos comportamentais esócio-culturais que constituem partes importantes da própria perturbação e que interferem, muito provavelmente, na mediação daquelas ligações. Se não há dúvidas quanto ao carácter crónico e recidivante desta perturbação cerebral, caracterizada pela procura e ingestão compulsiva de drogas (O'Brien & McLellan, 1996), definindo o desigando “estado de adição” (caracterizado como uma situação em que o indivíduodeixa de poder exercer um controle voluntário sobre o desejo da droga (craving), perda de controle que reflecte as alterações verificadas no contexto cerebral), também não deverá haver dúvidas quanto à natureza dos modelos explicativos que guiam a investigação empírica deste objecto, os quais deverão ser suficientemente abrangentes de modo a
VOLUME III Nº4. JULHO/AGOSTO 2001

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