Do silencio do lar ao silencio escolar

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Questão de gênero e raça: o desempenho escolar de meninos negros1 Andréia Botelho de Rezende2

Resumo
A pesquisa aqui descrita abrangeu entrevistas com uma professora e quatro meninos negros de uma segunda série em uma escola pública na cidade de São Paulo. Os meninos negros entrevistados apresentavam um desempenho escolar igualmente insatisfatório. Apesar disso, foi possível perceber que elesdesenvolviam diferentes estratégias para lidar com as exigências e regras escolares. Em alguns casos, eles assumiam uma atitude “antiescola” e eram protagonistas freqüentes de conflitos com colegas e professores. Em outros casos, no entanto, eles procuravam meios alternativos para serem reconhecidos e elogiados, por exemplo, sendo prestativos e solícitos. A partir destes resultados, concluímospela heterogeneidade do grupo de meninos negros em relação as suas posturas e atitudes frente às dificuldades de aprendizagem.

Palavras-chave: Gênero, Raça, Ensino Fundamental, Masculinidades, Meninos. 1. Introdução
Esta pesquisa teve como motivação inicial o interesse em compreender as possíveis razões que levam meninos negros (pretos e pardos) a apresentarem uma situação escolar bastantedesvantajosa em comparação aos outros grupos (meninas brancas e negras, e meninos brancos): eles têm maiores dificuldades em permanecer na escola ao longo dos anos escolares, recebem conceitos de avaliação inferiores aos emitidos aos outros grupos, e são mais freqüentemente indicados para realizarem atividades de reforço (KIMMELL,

Este artigo é uma versão resumida do Trabalho de Conclusão de Cursoem Pedagogia, intitulado “Formas de ser menino negro: articulações entre gênero, raça e educação escolar na construção das masculinidades negras”, defendido na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e orientado pela professora Dra. Marília Pinto de Carvalho. 2 Graduada em Pedagogia pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e integrante do grupo “Estudos de Gênero, Educaçãoe Cultura Sexual” (EDGES), coordenado pelas professoras Dra. Marília Pinto de Carvalho (FEUSP) e Dra. Cláudia Pereira Vianna (FEUSP).
Revista Anagrama – Revista Interdisciplinar da Graduação Ano 1 - Edição 2 – Dezembro/2007-Fevereiro/2008 ISSN 1982-1689 Avenida Professor Lúcio Martins Rodrigues, 443, Cidade Universitária, São Paulo, CEP: 05508-900 anagrama@usp.br

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REZENDE, Andréia B.Questão de gênero...

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2000; EPSTEIN, 1998; HENRIQUES, 2002; RODERICK, 2003; CARVALHO, 2004, 2005; ROSEMBERG, 1996, 1998, 2001). A partir de uma análise dos dados da PNAD 1999 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), o estudo de Rosemberg (2001) revelou que a defasagem série-idade é mais acentuada no grupo de meninos e rapazes negros. Henriques (2002) encontrou situação semelhante aoanalisar as taxas de escolaridade líquida nos anos 1990, a partir dos dados das PNADs 1992 a 1999, e concluiu que no interior das raças, os indicadores das mulheres tendem a ser superiores ao dos homens. Por outro lado, entre as raças, as taxas das mulheres brancas são superiores às das mulheres negras e as taxas dos homens brancos são superiores ao dos homens negros. (HENRIQUES, 2002) Já aspesquisas qualitativas de Carvalho (2004, 2005, 2007), realizadas escolas públicas na cidade de São Paulo, apontam que, entre os alunos que obtiveram conceitos de avaliação negativos e foram indicados para atividades de reforço, estava uma maioria de meninos pobres (até 5 salários mínimos) e negros (pretos e pardos). Carvalho argumenta que os preconceitos de gênero e raça podem ter influenciado asprofessoras no momento da avaliação dos alunos. Ela explica que, como os critérios de avaliação não estavam muito claros para o grupo de professoras pesquisado, possivelmente elas lançaram mão de repertórios e referenciais pessoais, reproduzindo valores, idéias e símbolos decorrentes da hierarquia sócio-econômica e das relações de gênero e raça, o que culminou na reprodução de desigualdades no...
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