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as narrativas como alternativas pedagógicas na pesquisa e no ensino*
 
Maria Isabel da CUNHA**
 
 
Resumo:
Trata-se de uma reflexão sobre as narrativas como instrumental educativo, tanto na pesquisa como no ensino . Recupera-se o sentido das narrativas e parte-se do pressuposto de que, trabalhar com elas na pesquisa e/ou no ensino é partir para construção/desconstrução dasexperiências do professor. Defende-se a idéia que as narrativas provocam mudanças na forma como as pessoas compreendem a si próprias e aos outros e, por este motivo, são, também importantes estratégias formadoras de consciência numa perspectiva emancipadora. Explora-se a dupla vertente de possibilidades no campo: a investigação da narrativa usada no ensino e na pesquisa que usa a narrativa.Palavras-chave: Narrativas; Pesquisa qualitativa; Ensino com pesquisa.
 
 
"- São as minha memórias, dona Benta.
- Que memórias, Emília?
- As memórias que o Visconde começou e eu estou concluindo. Neste momento estou contando o que se passou comigo em Hollywood, com a Shirley Temple, o anjinho e o sabugo. É um ensaio duma fita para a Paramount.
- Emília! exclamou dona Benta. Você quer nos tapear. Em memórias agente só conta a verdade, o que houve, o que se passou. Voce nunca esteve em Hollywood, nem conhece a Shirley. Como então se põe a inventar tudo isso?
- Minhas memórias, explicou Emília, são diferentes de todas as outras. Eu conto o que houve e o que deveria haver[...]"
                                                                                                 (Monteiro Lobato, 1950,p.129)
 
 
As inúmeras pesquisas qualitativas que se desenvolvem no Brasil, em especial na área de educação de professores, mostram que a teorização sobre esta metodologia vem crescendo, acompanhada de uma significativa prática investigatória. São importantes as recentes contribuições neste sentido, em especial as de Haguette (1987), Ludke & André (1986), André (1995), Fazenda (1992 e 1995), Minayo(1994) e tantas outras. Foram elas as principais responsáveis pela difusão e construção de um referencial teórico hoje presente na maioria das dissertações, teses e pesquisas educacionais brasileiras.
Já é tempo, entretanto, de que os pesquisadores que se dedicam ao processo de investigação qualitativa reflitam sobre sua própria experiência e a façam acompanhar das trajetórias da investigação,como muitas das autoras acima citadas vêm fazendo. Esta é a nossa intenção ao abordar este tema, já que as reflexões aqui pontuadas são fruto de atividades de pesquisa e de ensino .
Constantemente temos usado o expediente das narrativas, tanto em situações de pesquisa como de ensino e observado os processos vividos pelos envolvidos.
Inicialmente tínhamos a perspectiva de que as narrativas constituíama mais fidedigna descrição dos fatos e era esta fidedignidade que estaria "garantindo" consistência à pesquisa. Logo nos apercebemos que as apreensões que constituem as narrativas dos sujeitos são a sua representação da realidade e, como tal, estão prenhes de significados e reinterpretações. Conseguimos, ainda, perceber que, antes disto ser um problema, era o cerne da pesquisa sócio-antropológicapois, como explicitam Berger & Luckmann, as análises tem particular importância para a sociologia do conhecimento porque revelam as mediações existentes entre universos macroscópicos de significação, objetivados por uma sociedade, e os modos pelos quais estes universos são subjetivamente reais para os indivíduos (1985, p.109).
O fato da pessoa destacar situações, suprimir episódios, reforçarinfluências, negar etapas, lembrar e esquecer, tem muitos significados e estas aparentes contradições podem ser exploradas com fins pedagógicos.
Tanto nas situações de ensino como nas de pesquisa, é preciso estar atento a este aspecto. Dependendo dos objetivos do investigador, discutir com os sujeitos das narrativas o perfil de sua narração pode ser um exercício intensamente interessante, capaz...
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