Discurso do sujeito coletivo-resenha de texto- gondim, sônia maria guedes. fischer, tânia fischer. o discurso do sujeito coletivo. cadernos gestão social, salvador, v.2, n.1, p.09‐26, set.‐dez. 2009

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DISCURSO DO SUJEITO COLETIVO
O desafio que o DSC buscou
responder foi o da expressão do pensamento ou
opinião coletiva, respeitando a sua dupla
condição qualitativa e quantitativa. A dimensão
qualitativa é o discurso. A quantitativa se
expressa na frequência de compartilhamento de
discursos entre indivíduos.
Nas palavras de Fernando Lefèvre, o DSC
é um discurso síntese, fruto dosfragmentos de
discursos individuais reunidos por similaridade de
sentidos. Tal discurso, formulado na primeira
pessoa do singular, é elaborado pelo pesquisador
e analista de discurso. Por que a primeira pessoa
e não a terceira pessoa do singular ou a primeira
do plural? Do que se pode depreender da leitura
dos textos dos autores (por exemplo, LEFEVRE;
LEFEVRE, 2005), a primeira pessoa do pluralnão
é a mais apropriada porque destaca um “nós”
que marca mais uma oposição ao “eles” do que
uma inclusão dos demais entes sociais em uma
categoria ontológica de nível coletivo. A primeira
pessoa do singular, ao contrário, simboliza de
modo mais preciso um hipotético sujeito coletivo
único (individual) para o qual se concede um
caráter ontológico. No entanto, no nosso ponto
de vista, omesmo argumento ontológico daria
sustentação ao discurso construído na terceira
pessoa do singular, figura de tratamento
tradicionalmente recomendada na linguagem
científica. A diferença é que enquanto a
linguagem científica defende o uso da terceira
pessoa para dar um caráter de distanciamento
entre o pesquisador e o objeto pesquisado, no
contexto do DSC e da produção do senso comum,
aterceira pessoa seria usada para fazer alusão a
um sujeito genérico que representa o coletivo. O
conceito de Outro Generalizado de Mead (1962)
simboliza bem o que queremos dizer e isto será
retomado mais adiante.
Para resumir, o que há de coletivo neste
discurso construído artificialmente pelo
pesquisador? Se o discurso individual revela não
somente a fala individual, mas o que há de
coletivo(vozes sociais diversas, polifonia e
heterogeneidade), o discurso coletivo é a junção
dos discursos individuais, respeitando os sentidos
e o nível de compartilhamento. A rigor, os
discursos individuais nada mais são do que
discursos coletivos enunciados por apenas uma
pessoa.
A base teórica de sustentação
metodológica do DSC é a Teoria das
Representações Sociais, e os DSCs sãoconsiderados partes destas representações. A
definição de representações sociais desde sua
criação é marcada por uma polissemia
(MOSCOVICI, 1978) continuamente afirmada nas
revisões de literatura subsequentes sobre o tema
(WACHELKE; CAMARGO, 2007).
Independentemente da ausência de pleno
consenso sobre sua definição, representações
sociais estão fortemente associadas à construção
de teorias do sensocomum compartilhadas
coletivamente, cujas funções são tanto de
enquadramento dos objetos sociais em sistemas
hierárquicos estruturados de relativa
estabilidade, quanto de prescrição para guiar
ações e interações sociais (ABRIC, 2001,
MOSCOVICI, 2003, SÁ, 1996).
Uma diferença entre a análise de discurso
apresentada nas páginas iniciais deste artigo e o
discurso do sujeito coletivo é emrelação à
representação social. Esta abordagem teórica
adota a premissa de que há representações
individuais que não são compartilhadas e,
portanto, são mais atinentes à maneira como
cada um apreende o mundo a sua volta
independentemente de isto ser ou não
compartilhado. A tradição da análise de discurso
não inclui esta perspectiva, já que nega a
possibilidade do sujeito empírico seexprimir no
discurso. A proximidade com a análise de
discurso, todavia, dá‐se pelo entendimento de
que as representações sociais têm estabilidade
variada e estão sujeitas a modificações de
estrutura e de conteúdo ao longo da história
(maleabilidade estrutural).
Dois conceitos são centrais na proposição
de representações sociais de Moscovici:
objetivação e ancoragem. Pela objetivação o
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