Deus e o diabo na terra do sol - dualidade e contradição no sertão

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  • Publicado : 11 de março de 2013
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Angerson Cássio Ramos Vieira













DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL
DUALIDADE E CONTRADIÇÃO NO SERTÃO















UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
ESCOLA DE BELAS ARTES
BELO HORIZONTE, 2009
O filme Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), de Glauber Rocha, é uma das principais produções do cinema novo brasileiro, iniciado por Rio, 40 graus (1957,Nelson Pereira dos Santos) e marcado por uma drástica ruptura com os padrões estéticos e colonizadores do cinema americano e europeu, bem como por um compromisso com a realidade social brasileira. Num geral, os filmes do cinema novo partem do absurdo, da violência, da fome, da sujeira, da dor, da resistência, da agressividade, em contraposição ao romantismo, ao ritmo rápido e descritivo, ao happy end eaos atores másculos dos filmes americanos ou americanizados[1]. O pressuposto é de que o cinema brasileiro há de ser fiel ao povo e às suas vontades, delírios e necessidades. Deve ser mostrado como ele realmente é: massacrado, miserável, colonizado, mas resistente e potencialmente revolucionário.
Deus e o Diabo é exemplar em todos esses sentidos. Um de seus grandes feitos é subverter alógica tão característica das produções hollywoodianas (e das que as imitam, como O Cangaceiro, de Walter Lima Jr.[2]), de se localizar quem é o bom e quem é o mau da história, o mocinho e o vilão, o certo e o errado. O que Glauber mostra é que existe uma dualidade – contraditória, relativa e dialética – nos fatos, nas pessoas, nas crenças e nas atitudes. O que é Deus para uns, é o Diabo para outros,e vice-versa. O Santo pode ser no fundo um Diabo, o padre pode ser um Diabo, e o assassino pode ser um protetor dos marginalizados. A própria construção técnica do filme joga com essa dualidade: a trilha sonora original de Villa-Lobos (erudita) é mesclada com canções cordelistas populares, estas servindo, ainda, como narradoras. Uma cena barulhenta, com muita gritaria é seguida de uma cena muitosilenciosa, com os personagens sussurrando. Para ver essa dualidade enquanto movimento dialético, basta pensar que a música erudita não existe sem a popular (pelo menos enquanto parâmetro de comparação) e não há como saber o que é o silêncio sem saber o que é o barulho, e vice-versa.
E essa dialética contraditória é encarnada na figura do Manuel, que parece representar o povo e a necessidadedeste de fazer frente à sua miséria. Por outro lado, esse personagem soa de certo modo como uma contradição em relação às apregoações de Glauber Rocha no sentido de querer pautar o cinema novo também como promovedor da tomada de posição do povo pobre brasileiro, por sua conta, risco, necessidade e voluntariedade, frente à sua condição de vida colonizada e explorada. Manuel é um vaqueiroextremamente pobre que, logo no início do filme, mata seu patrão por uma injustiça deste – o que, a princípio, reforça as propostas do diretor. Não deve ser a toa que o Coronel se chama Moraes – justamente após matá-lo, Manuel perde sua Moral, ou suas Morais, e vai em busca de uma salvação que seja externa a ele. O pobre vaqueiro titubeia a todo instante em assumir a busca pela justiça – justamente numaterra em que não há uma justiça formalmente constituída[3] - então procura algo para se apegar. Podíamos fazer um paralelo com determinadas comunidades periféricas do Brasil de atualmente: por estar em certo sentido alheio à lei, muitos de seus moradores se apegam à religião evangélica ou ao poder paralelo do tráfico para fazer a sua própria lei, de modo que não se pode julgar aquilo ser um bem ouum mal, o Deus ou o Diabo. Esse apego às verdades absolutas (primeiro Santo Sebastião – teológica; depois Corisco – revolucionária) reafirma a contradição dos princípios do próprio Glauber: o povo não consegue, por conta própria, efetivar a justiça, de modo a ter que se recorrer a figuras que, embora não representantes de uma justiça ou de uma norma formal, são diferenciados, passivamente...
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