Desigualdade, diversidadea e violencia na sociedade brasileira. a questão dos afrodescendentes

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  • Publicado : 4 de maio de 2013
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VIOLÊNCIA: UMA PERSPECTIVA ANTROPOLÓGICA
Em 1986, na Reunião da SBPC em Curitiba, presidi um simpósio sobre violência no Brasil que resultou em uma publicação que, na época, teve bastante repercussão. Foram três mesas redondas que reuniram cientistas sociais e outros profissionais voltados para a problemática de segurança pública. Já havia, naquele momento, um consenso sobre a extrema gravidadedo problema. Uns dos pontos fundamentais foi salientar e distinguir vários tipos de violência, procurando complexificar a abordagem ao evitar reificar aquela noção. Assim, foram discutidos, entre outros temas, a desigualdade e a pobreza, a violência no campo, a violência contra as minorias étnicas e os gays, o racismo e o aparato e características do sistema prisional.
Passados quase vinte anosficamos, ao reler esses textos, com sentimentos ambíguos e contraditórios. De um lado, poderíamos desenvolver uma certa satisfação intelectual ao verificar que as observações e análises mantiveram, em geral, sua consistência e propriedade. Ainda nessa linha, fica evidente que os cientistas sociais não só perceberam e identificaram a gravidade do problema, que só se avolumou nos anos que seseguiram, como também apresentaram sugestões e propostas concretas em termos de implementação de políticas públicas. Em contrapartida, ficamos com um doloroso sentimento de que nossos trabalhos e denúncias muito pouco efeito tiveram junto às autoridades públicas responsáveis, em diversos níveis, no que toca à questão da violência e da segurança pública. Do mesmo modo, não fomos capazes de sensibilizar emobilizar a sociedade civil para que atuasse de modo mais vigoroso e conseqüente em sua própria defesa. Frise-se que nessas quase duas décadas a SBPC retomou, em várias ocasiões, a discussão e a denúncia dessa crescente ameaça à sociedade brasileira.
Hoje gostaria de chamar atenção para uma das conseqüências mais sérias diante da generalização da violência, entendida como ameaça físicaprodutora de risco de vida para os diferentes grupos e segmentos que compõem a nossa sociedade. Refiro-me à sociabilidade, base constitutiva da vida social. O que se chama, às vezes toscamente de “sensação de insegurança”, nos leva a uma sociologia ou antropologia do medo. As experiências diretas ou indiretas com episódios violentos de natureza física e/ ou simbólica como furtos, roubos, assaltos,ameaças, seqüestros, agressões, tortura e assassinato compõem um quadro de radical alteração nas expectativas e padrões de sociabilidade. Cada vez mais, especialmente nos grandes centros urbanos, evidencia-se uma extrema cautela chegando à desconfiança e mesmo à rejeição diante da possibilidade de contatos e interações sociais diferenciados. Embora haja um esforço, em alguns casos, de estabelecer pontesentre diferentes categorias sociais, predomina crescentemente uma tendência endogâmica de retração e isolamento social. Esses processos, certamente, não são lineares e apresentam descontinuidades e contradições.
É mais do que notório, embora nem sempre assimilado de modo conseqüente, que a situação das populações mais pobres, habitantes de favelas, conjuntos residenciais e periferias é a maisdramática. Estão sujeitas, de um lado, à ação direta e opressora de gangues de bandidos e traficantes. A sua vulnerabilidade evidencia-se mais ainda diante da ação policial, freqüentemente não seletiva, arbitrária e truculenta e, muitas vezes, em diferentes regiões do país associada a grupos de extermínio. As lutas entre as gangues e os confrontos com os órgãos de segurança produzem dezenas demilhares de mortes todo ano no Brasil. A vida nas áreas urbanas mais pobres fica sujeita a um toque de recolher, quase que permanente, em que fica flagrante a impotência de seus moradores. As associações tradicionais ou desaparecem ou se enfraquecem dentro desse quadro de grande violência física e pressão simbólica. Os supostos direitos elementares de ir e vir, por exemplo, não tem sustentação nem...
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